
Tal como eu,
as minhas asas estão órfãs
desamparadas
feridas,
não conseguem voar
não têm onde pousar.
Têm saudades do ninho
das mãos para as costurar…

Demorei o olhar
nos olhares sentados
nos bancos do jardim…
Nesses assentos de vida,
de vida respirada
tantas vezes
em horas aceleradas,
pela rotina que vestia os dias.
E agora?
Nos bancos do jardim
repousa o tempo,
o tempo enamorado nas lembranças
que perduram no silêncio,
à espera de encontrar quem as possa escutar.
E agora?
Nos bancos do jardim,
à sombra de um corpo envelhecido,
moldado pelas dores da solidão,
cabe o repouso de um andar cansado
que, ao abrir os olhos, vê o passado.
Tantas vezes
pousou o olhar nos olhares sentados
nos bancos do jardim…
E agora?

Pelo escuro chegam as insónias
descobrem na noite
o sossego para a sua inquietação.
O espaço fica frio e sombrio
rodeado de solidão,
e o meu corpo torna-se abandonado
indefeso,
sem saber lidar com a situação.
Entre voltas e voltas
cubro-me de palavras
certa de que a manhã vai acordar
com o meu corpo a erguer-se devagar
mas provavelmente,
com o nascer de um poema
acabado de imaginar…

Senti que me perdi
Na fragrância da noite
Que se mostrava fria
Opaca e vazia
Entre janelas desabitadas
E ruas desordenadas,
Dormitavam as palavras
Nuas e cruas
Como se estivessem apagadas,
Conto as horas da noite
Para depressa o dia chegar
E as palavras acordar
Gosto tanto de as ouvir falar…

É como se fosse um voo
Que atravessa o caminho
Arrastando uma mágoa
Que cria pouso no coração
De tão sozinho,
Sem ninguém por perto
Acolhe de peito aberto
Este passageiro,
Estende-lhe a sua mão
Que traz na bagagem a ilusão
De ser prestável companheiro
Mas viaja sem rosto,
Deixando um rasto de escuridão
Onde já nada parece existir
Se não o sentir da solidão.