
Ouves o silêncio?
Está revestido de ruído,
Murmúrios,
Sombras e ecos.
Prefere estar calado,
Talvez cansado,
À espera de um instante
Onde possa realmente descansar,
Ou simplesmente
Escutar
O silêncio.

São as cores da terra a tocar o céu,
o sol a despir o véu
para descer a encosta e pintar o vinho
que lhe dará cor e nome.
Enquanto o vento acena,
os barcos passeiam no rio
e os pássaros quebram o silêncio
no olhar que descansa
por entre o corpo que se deixou embalar
nesta paisagem que mais parece uma moldura,
que até o pensamento transfigura
no tempo que se sente pausar,
tal é o ponto de pureza
presente na beleza
onde nos sentimos repousar.
…Douro…

A cada passo,
sinto a liberdade das árvores
invadirem o espaço que é do céu,
o rasgar do vento
que penetra em cada momento
no agitar da folhagem,
que bate forte no silêncio,
levando e trazendo a aragem,
como se fosse roubar o pensamento.
A cada passo,
piso o chão preso pelas raízes
que sustentam a altivez do teu corpo,
e o meu olhar fica a flutuar
entre a quietude do azul do céu
e as folhas verdes que o vão enamorar.
Pela distância tudo parece sereno,
as árvores continuam crescendo
e o caminho vai-se fazendo.
Passo a passo…

Não sei se será o frio
ou talvez o arrepio
que faz ventar o dia
e alimenta a correria
da chuva que cai sem parar
e na terra se vem abrigar.
É o céu que silencia
o barulho da chuva que não finda,
gota a gota, mudam os odores
e a beleza que acolhe a natureza
veste-se de olhares e novas cores,
além da chuva que cai ainda…

Agora que a primavera chegou
E o inverno já se sente recolhido
O corpo inverte o sentido
Rumo à nova estação
Onde o coração se veste de cor
E a pele floresce
Como se fosse uma flor.
Agora que o inverno acabou
E a primavera já se instalou
O olhar despe-se do frio
Abriga-se na beleza
No toque do perfume verdejante
Que o oficio da natureza
Espalha numa simbiose radiante.
Uma doce leveza se plantou
Dentro de mim
O amor despertou
Agora que a primavera chegou…

A vida passa pela espessura
Que cobre as paredes dos dias
O tempo espreita pela ranhura
Por onde os anos atravessam
Levando as horas pelo caminho,
E neste vai e vem constante
Esvoaçamos como pássaros
Num bater de asas
Contra a corrente do tempo
Para quebrar a fechadura
Levantar voo e voar
Criar pouso e repousar!

Vejo-te a enrolar as ondas do mar
Sinto-te a assentar a poeira do ar
Escondes-te no meu cabelo
Que cede ao teu rodopiar
Esvoaçando para te agasalhar.
O meu corpo apega-se ao respirar
Do sopro que cai na minha pele
Toca nos poros até os arrepiar
Cruzo o meu olhar com o teu pensar
Nesse vai e vem constante de viajar.
És brisa
Levas as memórias que o tempo apagou
Liberto-me no aroma da tua aragem
Ganho leveza na minha bagagem
Agarro a vida que ainda não passou…

Aquieto-me
Com a última réstia de sol
Que espreita pela frincha
E se derrama no meu rosto
Contemplando o vagar
Do corpo que descansa
Sobre o dia quase findo
Que pousará no horizonte
Onde a luz recolhe
E levará o entardecer
A cair no anoitecer.
Aquieto-me
No olhar que se despe
Na inocência da madrugada
E reveste de sombra a noite
Até ao nascer das horas
Que acordam o amanhecer.

Da janela do meu quarto
Vejo a noite já fechada
Talvez um pouco ensonada
Embrulhada na madrugada
Sinto o aroma doce do vento
Que sussurra leve ao relento
Embala a noite no pensamento
O meu olhar embriaga-se na lua
Tímida esconde a sua face nua
No corpo que cresce como míngua
O céu no aconchego do anoitecer
Rouba-me o sono para adormecer
Vejo o sol abrir o amanhecer
Da janela do meu quarto.