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Sobre Fernanda Leal

Retrato-me com simplicidade na forma de ser e de estar, aprecio a autenticidade de cada momento, gosto de ter sonhos e sonhar e saborear a vida de forma singular. Descrevo-me através das palavras e dos versos que partilho com prazer e dedicação.

Prenderam as emoções

A tristeza saiu sem demora.
Decretado o fim da sua pena,
foi embora.

Estava livre,
mas, mesmo em liberdade,
arrastou o rosto pesado,
cambaleando sem destino,
até se deixar cair
por aí, em qualquer lado…

A cela ficou despida,
comprometida
em receber uma nova reclusa,
talvez menos intrusa.

Quem sabe a alegria,
tantas vezes mal-entendida,
pela ousadia que veste
ou pelo olhar que contagia.

Terá sido condenada
por ousar rir,
ou por viver
onde ninguém a percebia.

Prenderam as emoções.
Alguém compreenderá as razões?

Entre o tudo e o nada

Entre o tudo e o nada
estou eu,
não sozinha,
mas acompanhada
pelo presente do verbo ser,
se é que me faço entender…

Entre o tudo e o nada
estou eu,
com o presente da palavra amor,
tudo o que sei oferecer.

Será este presente a cura
para a perfeição que se procura?

O lugar que ficou

Revisito um lugar,
não um lugar qualquer,
a memória.

Vejo o rosto que brincava
entre os passos
onde moravam todos os afetos.

A infância,
esse lugar inocente
onde se falavam todas as línguas,
onde cabiam todas as brincadeiras,
onde as portas estavam sempre abertas
ao tempo e para o tempo…

Hoje sinto que esse lugar se afastou.
Talvez pela idade,
não sei,
simplesmente na memória ficou…

Como se fosse um grito

Escrevo
para preencher uma ausência,
uma folha em branco,
um grito fechado no meu coração.

Escrevo
para emparelhar a inquietação
das perguntas
presas na garganta.

Escrevo
para encontrar silêncio
dentro do meu ruído.
Para procurar sentido
na imperfeição das palavras
que não pronuncio.

Escrevo
porque, enquanto escrevo,
encontro lucidez na minha voz.