Abrigo

Trago-te para perto de mim,
Para ter o corpo agasalhado
Entre o céu abastado de nuvens
E a chuva que cai sem parar
Mergulhando num deserto
Sombrio,
Pousado dentro de mim.

A vida corre sem tempo
A pele esfria por entre as palavras
Nada pode abrandar a vontade de caminhar
O amor não pode ser adiado
E os dias cansados
Nascem de novo amanhã
E depois… renovados.

Por aqui

Encontro-me por aqui,
enquanto a vida não foge,
no corpo que madruga
para arrumar as palavras
que a mente vai desarrumando.

Perco-me por aqui,
enquanto a vida foge,
tentando acordar o corpo
para encaixar os passos
que o trilho vai desorientando.

Por aqui,
no tempo que encontro no tempo
e na escassez embriagada do tempo
por aqui.

Procuro o tempo

Procuro o vagar
O soar lento do tempo
O respirar pausado
Despido de fadiga.

…Procuro o vagar
Para não ter de correr de mim
Nem deixar fugir a vida antes do fim.

…Procuro o tempo devagar
Para não sentir os dias cansados
E não seguir por caminhos apressados.

…Procuro devagar…

…Toca a viver…

Enquanto as horas vagueiam no meu corpo,
já o tempo rasgou os dias
e percorreu o sentido da minha pele,
sobrevivendo a esta fugaz passagem
até entrar na memória do coração
soltando-se uma explosão de silêncio
até se ouvir o tempo a despir:

… uma palavra que ficou por dizer
um sorriso apagado,
a promessa prometida e não cumprida,
o som de uma noite mal dormida,
a vida esquecida de ser vivida
e enquanto as horas passam,
olhamos para a vida já envelhecida…

Viagem do tempo

Nesta viagem do tempo
fugaz e a alta velocidade
o corpo embarca a todo o vapor
sem colher dos dias o sabor.

De paragem em paragem,
sem deixar a pele respirar
tamanho é o ritmo do caminho
que cada olhar segue mudo e sozinho,
levando na bagagem
a saudade de encurtar a distância
e deixar para trás os passos apressados,
os sorrisos fechados,
e devolver aos dias a importância
de viver estação a estação
com um bilhete de felicidade…

… Tempo …

Quando as palavras não saem
são as lágrimas que caem
só o silêncio me consegue ouvir
e só o coração me pede para não desistir.

Há dias em que o tempo não está para sorrir.
Perco o alcance do que tinha alcançado,
procuro-me para me voltar a encontrar.

…E nesta viagem,
poemas melhores hão de vir.
Acredito que as palavras nem sempre me traem
e o tempo é uma constante.
Liberto-me de lugar em lugar.

Silenciosamente

E de repente o silêncio
o céu despido de asas
o sossego da escuridão
as estrelas que parecem brasas
ardentes na imensidão.

E neste silêncio
brindo ao sabor do anoitecer
com o rosto vestido de luar
adormeço entre os sonhos
e a luz que me faz despertar.

Silenciosamente
o dia acaba de chegar…

…Dar tempo ao dia…

O relógio prendeu-me o corpo,
não acordei com a madrugada.
As horas fizeram a sua própria caminhada,
não serei eu a entregar-te a manhã,
a minha rotina tão desejada.

Amanhã deitarei as horas no meu regaço
para não sofrer tal embaraço.
Quero iluminar o teu amanhecer,
afastar a fadiga das horas,
dar tempo ao dia para o teu viver.