Prenderam as emoções

A tristeza saiu sem demora.
Decretado o fim da sua pena,
foi embora.

Estava livre,
mas, mesmo em liberdade,
arrastou o rosto pesado,
cambaleando sem destino,
até se deixar cair
por aí, em qualquer lado…

A cela ficou despida,
comprometida
em receber uma nova reclusa,
talvez menos intrusa.

Quem sabe a alegria,
tantas vezes mal-entendida,
pela ousadia que veste
ou pelo olhar que contagia.

Terá sido condenada
por ousar rir,
ou por viver
onde ninguém a percebia.

Prenderam as emoções.
Alguém compreenderá as razões?

Como se fosse um grito

Escrevo
para preencher uma ausência,
uma folha em branco,
um grito fechado no meu coração.

Escrevo
para emparelhar a inquietação
das perguntas
presas na garganta.

Escrevo
para encontrar silêncio
dentro do meu ruído.
Para procurar sentido
na imperfeição das palavras
que não pronuncio.

Escrevo
porque, enquanto escrevo,
encontro lucidez na minha voz.

Sou casa

Por um qualquer lugar habitado
Estou eu,
Sem pertencer aqui
Nem a nenhum lado.

Pesa-me o caos que comigo trago
Pesa-me um certo cansaço
Pesam-me as palavras dos certos
A desfilarem sobre as minhas dúvidas.

Eu, que aqui estou,
O lugar onde me encontro
Continua habitável
Por mim,
E pela companhia da minha solidão.

Queria tanto conhecer-me

Queria tanto conhecer-me
como quem conhece um rio,
talvez o mar
ou um destino.

Sei que gosto de flores
e de sentir que a primavera
dura todas as estações
dentro de mim.

Queria tanto conhecer-me
com a mesma certeza
que acolho o amor
num abraço quente
e me entrego
à doçura de um sorriso.

Queria tanto conhecer-me
como quem escreve um poema
ou entrega o corpo
a uma dança não ensaiada.

Queria tanto conhecer-me
como alguém que sabe tudo
sinto que ainda não sei nada…