
Se eu te mostrar o avesso da minha pele
vais ver muitos pontos costurados,
tantos
que dava para fazer um vestido
com o tecido da minha própria pele.

Escrevo
para preencher uma ausência,
uma folha em branco,
um grito fechado no meu coração.
Escrevo
para emparelhar a inquietação
das perguntas
presas na garganta.
Escrevo
para encontrar silêncio
dentro do meu ruído.
Para procurar sentido
na imperfeição das palavras
que não pronuncio.
Escrevo
porque, enquanto escrevo,
encontro lucidez na minha voz.

Por um qualquer lugar habitado
Estou eu,
Sem pertencer aqui
Nem a nenhum lado.
Pesa-me o caos que comigo trago
Pesa-me um certo cansaço
Pesam-me as palavras dos certos
A desfilarem sobre as minhas dúvidas.
Eu, que aqui estou,
O lugar onde me encontro
Continua habitável
Por mim,
E pela companhia da minha solidão.

Queria tanto conhecer-me
como quem conhece um rio,
talvez o mar
ou um destino.
Sei que gosto de flores
e de sentir que a primavera
dura todas as estações
dentro de mim.
Queria tanto conhecer-me
com a mesma certeza
que acolho o amor
num abraço quente
e me entrego
à doçura de um sorriso.
Queria tanto conhecer-me
como quem escreve um poema
ou entrega o corpo
a uma dança não ensaiada.
Queria tanto conhecer-me
como alguém que sabe tudo
sinto que ainda não sei nada…

O olhar seguiu
sem pensar se era início ou fim,
sem sentir que fugiu,
se estava perto ou longe de mim.
Viu as nuvens agarradas ao céu,
os desenhos lá pendurados,
livres,
expostos à imaginação
de sobrevoar o denso manto que cobre a terra.
Seguiu,
unido pelo olhar que viu.
Tudo era perfeito,
até questionar
se tudo aquilo realmente existiu.
Quantas vezes o olhar
se encontra perdido,
até pousar e ser entendido!
Quantas vezes…

A chuva toca nas vidraças das janelas,
a música ecoa dentro de casa.
Embebo-me na melodia
e viajo sem bagagem,
entre os movimentos que o corpo solta
e o acaso,
sem qualquer compromisso,
alheio à idade,
afastado da rotina.
Livre,
simplesmente a ouvir a voz,
a voz que transparece verdade,
feminina.
As palavras vestidas com vaidade
despertam-me.
Enquanto a chuva bate lá fora,
danço,
a poesia que ouço,
a poesia que escrevo…
Sou mulher
hoje ou outro dia qualquer.