
Como é simples a tarde
que repousa ao sol
e traz o silêncio do mar
para dentro do corpo
que se arruma
para pousar no entardecer.

E assim será
de tarde em tarde,
viajar no teu vento
debruçar o meu coração no teu horizonte
sentir a brisa a rodopiar
como se fosse ler o meu pensamento
até entregar a nudez da minha pele
ao teu enrolar vadio,
que me prende e desprende
neste cair de tarde
de todas as tardes,
onde o meu olhar se embebeda
pelo teu mar…

Se tivesse que escrever um poema
seria com certeza sobre o mar
porque navego em rotas desconhecidas
deixo que o vento me leve e me alimente a ilusão
descubro-me em palavras que achava perdidas
nem sempre em terra firme encontro imaginação.
O mar é um horizonte aberto
o coração embarca como viajante
tendo a liberdade como direção
os poetas seguem a maré
transportam as palavras com o olhar confiante
mergulham o amor em poemas de paixão.
Se tivesse que escrever um poema
seria com certeza num barco a navegar…

O mar é meu vizinho
de tantas vezes que o vi
apenas hoje o senti naufragar
sozinho,
perdido à deriva no meu olhar.
Procurava refúgio
alguém com quem desabafar.
Já a brisa o tentava animar
dar rumo às marés
iluminando as madrugadas
como se fosse um farol
onde os corpos salgados
se vão abrigar
das tempestades do mar
de tanto ele amar…

Ouvi os queixumes do mar,
entristecido.
Já se tinha lamentado à lua,
desabafava sobre a terra
que por vezes amua,
flutua como as marés,
desorientada,
com o olhar longe.
Desgostoso,
o mar encobre-se no nevoeiro,
saudoso de lhe salgar a pele,
navegar no horizonte do seu corpo,
espalhar na brisa o que guarda no coração.
Sente pela terra um mar de paixão.

O olhar estendeu-se até ao mar,
a memória embarcou no seu ondular,
nos tempos em que os sonhos
ficavam para além do horizonte,
distantes da vista alcançar.
Hoje, o olhar um pouco cansado
encontra a felicidade deste lado,
onde as marés se juntam
e a brisa vai trazendo desejos,
neste mar aberto
que será sempre navegado por sonhos
e banhado por beijos…

Acordei vestida pela manhã sem reconhecer a cor que me cobria a pele. Perdida no espaço, com o olhar um pouco entorpecido, procuro aconchego no espelho, que não me parece ter qualquer empatia nem vontade de me mostrar outro rumo.
Ensaio todas as portas, procurando a brisa pura do mar que me é tão familiar.
Abro caminho para tentar avistar a tamanha imensidão azul que me banha o pensamento e me faz arrepiar a alma.
Sinto que não vou a lugar nenhum e esta ausência apenas existe dentro de mim.
Todos os dias o mar amanhece e espalha vida na vida que em nós acontece.
Estarei certa desta dimensão para abrir o meu horizonte em busca de inspiração…

Levei o meu olhar até ao mar
deixei a água entrar na minha pele,
navegar em todas as frestas
e o meu corpo salgar,
como se fosse um manto de espuma
onde o mar se vem enrolar
e mergulhar em mim…
Ao ver a imensidão do mar
o olhar fechou os olhos
pensou na liberdade de voar
de levar no aconchego do regaço
as palavras à deriva no pensamento
entre a voz que silencia o momento
neste mar que habita em mim…

Perdi o olhar a olhar para o mar
de tanto imaginar até onde me poderia levar
quantas marés a minha alma irá vivenciar
quantos luares a minha janela irá encontrar.
Quantos segredos pedi ao mar para guardar
quantas noites adormeci com o seu embalar
tantas vezes sonhei que me vinha buscar
cúmplices na vontade de partir e voltar.
Sinto o olhar a olhar para o mar
satisfeito de tanta beleza contemplar
quantos medos pedi ao mar para afogar
quantas lágrimas enxuguei a ver o mar.