Dias de Inverno

Sinto uma sombra,
como um ranger surdo,
sob o teto do meu corpo.

Um frio intermitente
pousa dentro das minhas veias,
e as mãos batalham
já um pouco engelhadas,

enquanto o olhar se mantém quente
agachado por entre a memória,
sim, a memória
que aconchegava os nossos dias,
não de tristeza,
mas de inverno…

Queria tanto conhecer-me

Queria tanto conhecer-me

como quem conhece um rio,

talvez o mar

ou um destino.



Sei que gosto de flores

e de sentir que a primavera

dura todas as estações

dentro de mim.



Queria tanto conhecer-me

com a mesma certeza

que acolho o amor

num abraço quente

e me entrego

à doçura de um sorriso.



Queria tanto conhecer-me

como quem escreve um poema

ou entrega o corpo

a uma dança não ensaiada.



Queria tanto conhecer-me

como alguém que sabe tudo

sinto que ainda não sei nada…

Luz que escurece os dias

Desconheço a sintaxe

Do corpo que respira

Por entre as folhas despidas

Deste outono.

Contorno o céu

Com o mesmo olhar

Que percorre os recantos

Da minha alma.

A terra acompanha o saltitar

Das chuvas que caem

E lavam a poeira assente no pensamento.

Cai nas minhas mãos

Um pouco da luz

Que escurece os dias deste outono.


Pego no meu corpo

E entrego-o ao recomeço…

Entre o chão que piso…

Piso o chão

Enterro o corpo

No encontro com a terra

Entre o brotar de tempo

De memórias recortadas

De promessas inacabadas.

Repouso

No chão que piso

Que tantas vezes me segura

Que tantas vezes espera por mim

Que tantas vezes me encontra

No desencontro com a vida.


Acolhes-me no teu regaço

Semente enraizada

Que te ofereces, em troca de nada…