
Não serei eu
a habitar o silêncio
ao respirar um poema
sou apenas o lugar
onde a voz
ecoa poesia

Trago-te para perto de mim,
Para ter o corpo agasalhado
Entre o céu abastado de nuvens
E a chuva que cai sem parar
Mergulhando num deserto
Sombrio,
Pousado dentro de mim.
A vida corre sem tempo
A pele esfria por entre as palavras
Nada pode abrandar a vontade de caminhar
O amor não pode ser adiado
E os dias cansados
Nascem de novo amanhã
E depois… renovados.

Queria tanto conhecer-me
como quem conhece um rio,
talvez o mar
ou um destino.
Sei que gosto de flores
e de sentir que a primavera
dura todas as estações
dentro de mim.
Queria tanto conhecer-me
com a mesma certeza
que acolho o amor
num abraço quente
e me entrego
à doçura de um sorriso.
Queria tanto conhecer-me
como quem escreve um poema
ou entrega o corpo
a uma dança não ensaiada.
Queria tanto conhecer-me
como alguém que sabe tudo
sinto que ainda não sei nada…

Desconheço a sintaxe
Do corpo que respira
Por entre as folhas despidas
Deste outono.
Contorno o céu
Com o mesmo olhar
Que percorre os recantos
Da minha alma.
A terra acompanha o saltitar
Das chuvas que caem
E lavam a poeira assente no pensamento.
Cai nas minhas mãos
Um pouco da luz
Que escurece os dias deste outono.
Pego no meu corpo
E entrego-o ao recomeço…