E agora?

Demorei o olhar

Nos olhares sentados

Nos bancos do jardim…

Nesses assentos de vida,

De vida respirada

Tantas vezes

Em horas aceleradas,

Pela rotina que vestia os dias.

E agora?

Nos bancos do jardim

Repousa o tempo,

O tempo enamorado nas lembranças

Que perduram no silêncio,

À espera de encontrar quem as possa escutar.

E agora?

Nos bancos do jardim,

À sombra de um corpo envelhecido

Moldado pelas dores da solidão,

Cabe o repouso de um andar cansado

Que, ao abrir os olhos, vê o passado.

Tantas vezes

Pousou o olhar nos olhares sentados

Nos bancos do jardim…

E agora?

… O caminho do olhar…

A tarde ficou calada

Só a chuva, que vai caindo,

Preenche o vazio do silêncio.

E eu, aqui sentada,

Sinto que o olhar já continuou caminho,

Não se deixa repousar

Nem se entrega ao abandono do corpo,

Veste bem as horas

Não é a chuva que vai caindo

Que lhe desbota o brilhar!

…Pelo escuro da noite…

Pelo escuro chegam as insónias

Descobrem na noite

O sossego para a sua inquietação,

O espaço fica frio e sombrio

Rodeado de solidão,

E o meu corpo torna-se abandonado

Indefeso,

Sem saber lidar com a situação

Entre voltas e voltas

Cubro-me de palavras

Certa que a manhã vai acordar

Com o meu corpo a erguer-se devagar

Mas provavelmente,

Com o nascer de um poema

Acabado de imaginar…

Parte Incerta…

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São palavras que escondem palavras,
Em livros comidos pela traça.
Poemas que mudaram de lugar
Versos esquecidos que tiveram que se ausentar.
Todos partiram para parte incerta
Levando apenas a solidão
Nada tendo para os acompanhar.
Já não há eco de leitura
Nem paisagens de bravura,
Os contos perderam-se das histórias
O tempo suspendeu as memórias.
Ninguém bate à porta de ninguém,
O medo abraçou esta textura
O olhar fugiu e deixou-se cegar
Enterrou-se nesta loucura.

As horas da noite

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Senti que me perdi
Na fragrância da noite
Que se mostrava fria
Opaca e vazia
Entre janelas desabitadas
E ruas desordenadas,
Dormitavam as palavras
Nuas e cruas
Como se estivessem apagadas,
Conto as horas da noite
Para depressa o dia chegar
E as palavras acordar
Gosto tanto de as ouvir falar…

No voo da solidão

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É como se fosse um voo
Que atravessa o caminho
Arrastando uma mágoa
Que cria pouso no coração
De tão sozinho,
Sem ninguém por perto
Acolhe de peito aberto
Este passageiro,
Estende-lhe a sua mão
Que traz na bagagem a ilusão
De ser prestável companheiro
Mas viaja sem rosto,
Deixando um rasto de escuridão
Onde já nada parece existir
Se não o sentir da solidão.