
Corro
Pela tarde que se alonga,
Desdobrando as horas
Na ilusão de ganhar tempo,
Esse tempo fugidio que enruga os meus dias
E apressa o corpo a envelhecer.
E eu,
Com a mesma incerteza,
Corro,
Sem saber se o tempo também passa a correr…

Pelo tempo que se faz sentir
Quero que saibas
Que na tua ausência
Não há sol,
As manhãs nascem viúvas
Enterradas em solidão.
As palavras são escassas,
E as tardes escondem-se nas chuvas
Nas horas que trazem a escuridão.
Quero que saibas
Que a tua presença
Traz aos dias a diferença
Do tempo que se faz sentir…

Da minha janela vi um vento que desconhecia
Não sei se chegava ou partia,
Voava alto,
Arranhava o céu
Rodopiava certo dos movimentos que fazia,
Mostrava leveza e sabedoria,
Arrastava uma aragem bem arrumada.
A minha janela ganhou outra dimensão
A casa ficou mais iluminada,
Senti que o meu olhar já não me pertencia
E o corpo caminhava em outra direção
Despindo a preocupação
Empurrando o pensamento
Para viajar nas asas deste vento.

Esperei de todas as formas que é possível esperar
Dias e dias, horas entre horas até o tempo parar
Enrolei-me nas noites frias, despida
Camuflada nas trevas
Dentro do silêncio da vida
No seio dos meus seios
Onde a tua voz pernoitava
E o nosso amor se conjugava.
Vejo todas as formas que é possível ver
À espera de saciar as esperas
Sabendo que o tempo não sobra
E não espera por mim.

O que cala a voz que trago no peito
O silêncio da chuva que cai
O rio que corre depressa
Fugindo do seu leito
Ou a surdez de quem passa
De olhar insatisfeito?
Não há tempo para recuar
Somos a multidão premiada para avançar
Não importa onde a corrente possa desaguar
Tecemos uma linha onde o destino é triunfar.
Sinto a voz do meu peito a afogar…