Longa caminhada

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Que longa é a caminhada
Que íngreme o trilho que tracei
Tanto pó no corpo levei
Sem nunca abandonar a estrada.

Como era denso o horizonte
Trémula a minha imagem
De sol a sol recebia coragem
Saciava o cansaço em cada fonte.

No silêncio uma teia confusa
Subtil emaranhado no pensamento
Percorro esta terra sem movimento
Ausente de vida como se fosse reclusa.

Estou prestes a chegar
Já avisto o arco-íris colorido
Outrora cinzento e escondido
Hoje deu lugar ao sol para brilhar.

Já sinto o teu olhar, o som da tua voz
Acordei presa a muitos laços
Tantos como os teus abraços
Festejo a vida, brindemos a nós.

O meu lar…

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Espreito pela janela entreaberta
O tapete de flores que cobre a terra
Absorvo a tranquilidade que desperta
Os sentidos numa nova descoberta.

O meu olhar estende-se na paisagem
A minha alma apega-se ao sossego
Retrato-me numa nova imagem
Encontro o prazer do aconchego.

Já não há sombra no meu caminho
Despedi-me do silêncio e do escuro
Enterrei o sentimento de desalinho
Parto à procura de um lugar seguro.

Hoje conheço os contornos deste lugar
Outrora um labirinto sem fim
Sinto leveza para receber e dar
Deixo o retrato que fizeram de mim.

Salto para a outra margem
Com vontade de vencer a emoção
Não levo angústia na bagagem
Apenas um secreto amor no coração.

Está terra será o meu novo lar
Aqui há um espaço íntimo e profundo
Um céu com estrelas a brilhar
Paz, amor e tudo o que me liga ao mundo.

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A noite acorda o dia
Ouço o barulho da chuva lá fora
Dentro de mim e agora
Sinto o cair de cada gota
Como se fosse uma nota
Tocada numa triste melodia.
A casa está vazia
Sufoco no ar que agonia
Por se a única companhia
Ouço o sussurro do vento
O bailar das folhas em movimento
Adormeço na rotina desta calmaria.
A noite acorda o dia…

No teu poema

alfazema

Deixa-me entrar no teu poema
Onde as palavras representam
As rimas adormecem e despertam
Onde tudo é permitido e sem problema.

Deixa-me fazer parte do teu universo
Dos versos que alimentam o sonho
E os deixam viver num planeta risonho
Onde o medo de viver habita submerso.

No teu poema o ritmo soa a melodia
Cada estrofe é uma sinfonia de arte
Transporta o amor para qualquer parte
As palavras estão cercadas de magia.

Quero ser o tema do teu poema
Planta-me num campo de alfazema
Cria-me no infinito da tua poesia
Liberta-me num poema da tua autoria.

Sem abrigo

escuro

Estava escuro
O olhar penetrava em vultos
Que vagueavam entre tumultos
Em sussurros mudos
Em gritos absurdos
Dispersos no olhar vazio e obscuro.
Estava frio
O rosto mergulhado em indiferença
Ausente de sentimento e de crença
Esfriavam-se os sentidos
Multiplicavam-se os ruídos
Num corpo desfeito e sem brio.
Sozinho e triste
Em gestos contidos
Em sonhos perdidos
Não encontra um amigo
Roubaram-lhe o abrigo
Em silêncio desiste…

Mundo Cruel

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Este mundo não é o meu
Mas dizem que é nosso
Como é frágil e como adoeceu
Quero voltar ao meu mundo
Mas dizem que não posso.
Vivemos em sociedade
Em países civilizados
Entre doutores, políticos e magistrados
Com excesso de poder e mediocridade.
Invadidos por culturas extremistas
Entre assassinos e também terroristas
Estão os que se nomeiam heróis por lutar
E por quantos mais inocentes matar.
Este mundo proíbe-nos de sonhar
Somos reféns da ignorância
Do fracasso e da intolerância
Das atitudes de repugnância
Manifestadas em atos de violência
Neste mundo de demência.

#PrayForParis

Lisboa

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Passeio entre as ruas estreitas da cidade
E os becos onde ecoa a conversa das vizinhas
Que debruçadas nas varandas coloridas das casinhas
Traduzem em gestos de lamúria e cumplicidade
O apego às origens, despidas de qualquer vaidade.
Desço a calçada rodeada de vielas
Enquanto sobe a encosta o elevador da Glória
Tem o miradouro como paragem obrigatória
Onde os artistas mostram as suas aguarelas
E os namorados dão as suas escapadelas!
O Tejo reflete o encanto da cidade
A vista perde-se em tamanha graciosidade
O pensamento rende-se à inspiração
Da paixão vivida pelos amantes
Que diante desta paisagem prenderam o seu coração.