…Entre aromas…

Recolhi os aromas da minha infância

Semeados na cadência do tempo

Com eles soltaram-se os sonhos

Os segredos soletrados às estrelas

A inocência da idade

Que voava nas asas do vento,

Cada dia tinha um sabor

Um novo alento,

E as horas pousavam devagar

Livres,

Dentro do meu olhar

Guardo esta cumplicidade

Com saudade…

Somos Palavras

Dizem que as palavras não têm tempo

Mas estão em constante movimento

Plenas de intensidade

Encurtam a distância e medem a verdade

Escutam as conversas

Palavras entre palavras,

Traçam um caminho de cumplicidade

Deixando um rasto na memória

Conjugam-se entre o sonho e a realidade

Hoje somos palavras,

Ditas ou escritas

Mais adiante somos

Palavras recordadas ou apagadas …

…Dar tempo ao dia…

O relógio prendeu-me o corpo

Não acordei com a madrugada

As horas fizeram a sua própria caminhada

Não serei eu a entregar-te a manhã

A minha rotina tão desejada.



Amanhã deitarei as horas no meu regaço

Para não sofrer tal embaraço

Quero iluminar o teu amanhecer

Afastar a fadiga das horas

Dar tempo ao dia para o teu viver.

…O que trago em mim…

Se hoje escrevesse um poema

Escolheria palavras leves

Transparentes e coloridas

Como a alma do autor,

Um poeta madrugador

Vestido de vontade

Conjugando o olhar e o sentir

Expondo-se entre rimas e versos

Com o tempo que deixa fluir…

Nem sempre sei o que trago em mim

Se hoje escrevesse um poema

Começaria certamente assim…

Singularidades …

Debruçada na vida

Neste espelho singular

Que me traz memórias vividas

Recordo palavras ditas ao luar

Desarmadas,

Em madrugadas jamais esquecidas.

Neste conjugar de pensamentos

Transporto algumas rugas na idade

Mas não faço do passado saudade

Darei ao tempo o que é do tempo

E aos meus dias contarei histórias

Que fazem a vida sorrir

Esticando o caminho de existir.

Coordenadas

Se quiseres saber de mim

No rosto trago a essência

O corpo veste-se de aparência

Conservo na idade alguma inocência

E dou por mim a viver assim

Na simplicidade de um olhar

Não muito longe,

Num lugar fácil de encontrar

Estarei com o sol ao amanhecer

E irei com ele ver o mar ao entardecer

Se quiseres saber de mim…

Feliz Ano Novo

Como se fosse o vento

Como se tivesse asas

Fecho os olhos

Corro,

Voo,

Avanço o tempo

Estendo os braços

Agarro este momento

Para te entregar abraços

Que comigo guardei,

Sabendo que hoje era o dia certo

Abri os olhos e te abracei.


Peço ao vento que transporte a mensagem

Que a faça soar na sua viagem

Feliz Ano Novo

Chegou dezembro

Chegou dezembro

Frio e molhado

Procura um regaço

Um lugar aconchegado

Onde aquecer o tempo

Para sentir de novo a pele

No corpo pelo vento moldado.


Chegou dezembro

Mas a casa está vazia

Fechada e sem companhia

Não há quem a venha habitar

Faltam abraços para reconfortar

O ano está cansado e triste

A pandemia não o deixa sossegar.

Identidade

Conheço-me

De perto

Tal como sou

Entrego-me

De coração aberto

Sei o que dou,

Habito

Dentro e fora de mim

Traço novos caminhos

Mas sei de onde vim,

Colho na madrugada

Essência que se dissolve assim

Entre o silêncio do corpo

E a inocência das palavras

Cúmplices até ao fim.