Abrir a porta ao dia !

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E das tantas vezes que abri a porta
Nunca o dia me atraiçoou com sua cor
Hoje balbuciou a tristeza de uma noite morta
Atingida por um pesadelo preso na dor.

Descortinou o tom acinzentado do céu
Assim que o relógio bateu na madrugada
Depressa estendeu a cor da manhã como um véu
Deu ao dia a rotina por todos nós esperada.

As horas percorriam o mesmo caminho
As cores assentavam no mesmo lugar
O dia ensoalheirou, mas suspirava sozinho
O quanto desejava poder a noite abraçar.

Vestem a cumplicidade de uma amizade
Exposta entre o amanhecer e o anoitecer
Entregam-se sem quebrar a liberdade
De dar aos anos, aos meses e aos dias, ser.

Nem sempre o dia é de alegria,
Mas felicita-nos com a sua companhia
Todos os dias se abre para o dia!

Entre a noite e o dia

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A noite roubou-me o dia
O sono perdeu-se no escuro
O meu corpo deambula e fantasia
Mostra-se no seu estado mais puro.

O quarto cheira a sonhos acabados de entrar
O coração fecha-se e finge adormecer
As palavras recolhem e param de conversar
O amor penetra na noite até amanhecer.

Ergue-se a madrugada de rosto lavado
A janela abre-se para acolher o sorriso do dia
As insónias vincaram um retrato ensonado
Mas o corpo desperta e veste-se de ousadia.

… A noite devolveu-me o dia…

A vida do dia …

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O dia abriu-se à vida
Vestiu-se de sol e de tempo
Percorreu sem pressa,
A esquina que cruza com a rotina
O lugar onde os passos se exprimem
Marcam a vontade de recomeçar
De acolher a vida deste novo despertar.

A vida estende-se ao dia
De aparência doce e serena
Inquilina de constante sabedoria
Caminha sob um batimento constante
Carrega a leveza de viver cada instante
Com as cores que definem o olhar
Com os gestos que mexem cada acordar.

Ao sabor do vento…

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A cortina abre-se
Convidando o vento a entrar
A espreguiçar-se no meu acordar
A inspirar a ingenuidade da alma
E a decifrar a nudez do corpo
Que respira cada movimento
Como se a pele fosse abrigo
De todas as sensações…

A cortina abre-se
Rodopiando na janela entreaberta
O ar pousa em todos os sentidos
Acentua-se a vontade de te ver chegar
De saborear o bater do vento
No aconchego dos nossos corações…

Somos olhares…

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Só quando me vejo nos teus olhos
Sinto a pacatez do tempo
Imagino as horas rendilhadas,
O largar dos fios
Que outrora as mantiveram apressadas
Encontro agora no nosso olhar
O vagar com que tecemos o tempo
O entrelaçar das nossas mãos
No retrato que une todas as pontas
Costuradas entre os dias
Em que os corpos vão envelhecendo,
Sem deixar o tempo suspender
O abrigo que acolhe a arte de viver
Somos olhares …

De mim … para mim

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Esqueci-me de mim
Estou à deriva
Sou empurrada pelo coração
Que bate para não ficar órfão
Não quer ser levado pela maré
Nem deixar o meu corpo afogar
Entre as margens
Sem rumo,
Sente medo de ter que aprender
A viver dentro de outro ser.
Não me deixa partir
Segura-me entre as suas veias
Até a minha pele voltar a acordar
E eu,
De mim me lembrar …

… Um presente …

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 A vida é um presente
Oferecido neste instante
Porquê abri-lo mais adiante?

 

O dia acordara cedo
Com um toque de palidez,
Talvez um pouco cansado
Mas disposto a abrir o olhar
Deixar o sol entrar,
Sentir o orvalho a desaparecer
Por entre as flores se esconder
E saborear a natureza a amanhecer.
A vida respira esta fragrância
Agarra os dias sem os deixar fugir
Sacode a poeira que assenta nos ombros
Cria asas e entrega-se a viver.

O pisar do chão

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Descalça,
Sinto os meus próprios passos
Entranhando na terra
Percorrendo as raízes
Que se desprendem
E se agarraram à liberdade
De escolher o caminho
O pisar do chão
Que molda a orientação
Sem ter medo de seguir
De colher o que está para vir.
Descalça,
Neste rasgar de tempo
Que o corpo aprende a lavrar
Sem deixar que as feridas
O deixem abrandar…

 

O meu mar…

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Amanheceu com o ondular do mar a bater na soleira da porta.
Os búzios e as conchas quebram o silêncio, tamanha é a agitação ao entrarem desenfreados pelo portão que guardava a casa.
O cheiro a maresia penetra pelas frinchas e depressa se espalha pelas paredes que aconchegam o espaço onde o meu corpo dormitava.
Subitamente, a maré vazia que circundava a casa se enche de vida e até o sol se vem espraiar no meu jardim.
Abro a janela e acolho o olhar na beleza das hortênsias, cujo canteiro se apresenta bem vestido e colorido.
Por entre todos os cantos de flores navegam salpicos de diferentes cores que se misturam com os seus odores.
E toda a casa respira mar.
E eu, neste vai e vem, entrego-me ao balançar da minha cadeira amarela onde colho o repousar que me faz acordar todos os dias nesta terra a entrar pelo mar…