Dias de Inverno

Sinto uma sombra,
como um ranger surdo,
sob o teto do meu corpo.

Um frio intermitente
pousa dentro das minhas veias,
e as mãos batalham
já um pouco engelhadas,

enquanto o olhar se mantém quente
agachado por entre a memória,
sim, a memória
que aconchegava os nossos dias,
não de tristeza,
mas de inverno…

Luz que escurece os dias

Desconheço a sintaxe

Do corpo que respira

Por entre as folhas despidas

Deste outono.

Contorno o céu

Com o mesmo olhar

Que percorre os recantos

Da minha alma.

A terra acompanha o saltitar

Das chuvas que caem

E lavam a poeira assente no pensamento.

Cai nas minhas mãos

Um pouco da luz

Que escurece os dias deste outono.


Pego no meu corpo

E entrego-o ao recomeço…

Vamos buscar a primavera

Dá-me a tua mão

Guardei-te um lugar perto de mim.

Vamos buscar a primavera,

Trazê-la para dentro da poesia,

Aconchegá-la nas palavras que florescem

Plantá-la num canteiro de margaridas

E pedir ao sol que apareça,

Que nos traga um sorriso,

Uma luz que nos fortaleça.


Vamos buscar a primavera,

Embalados por entre as pétalas

Que rodopiam no nosso olhar.

E, quando ela finalmente quiser chegar,

Perto de mim haverá sempre

Uma réstia de saudade

A desabrochar…

Amanheceu o outono

Amanheceu o outono

A manhã ainda se espreguiça

E as nuvens parecem ter adormecido.

O dia caminha a passo lento,

Talvez até um pouco abatido,

Mas, contrariando a direção

O outono chega firme e decidido.

No olhar dos nossos olhos

Há pressa na paisagem,

Parece haver um breve abandono

As folhas vão caindo

Deixando as arvores despidas,

As conversas viram de página

Ganhando um novo sentido,

A estação entra num novo horizonte

A vida segue vida,

Ao encontro da outra margem…

É outra vez verão!

É outra vez verão!

Esses dias que caminham longos

Abastecem o corpo de luz,

Abrem a porta do coração

De onde saem as palavras

Sedentas de se desnudarem

Nas marés,

Nessa força de ir mais além,

No encontro de vida

Onde o amor se deixa ir também…




É outra vez verão!

Esses dias que caminham longos,

Leves, carregados de emoção!

Outono

Senti a tua chegada

Através dos dias curtos

E das folhas que caem na calçada

Deixo-te entrar na minha morada

Saboreio os teus aromas

Aceito a melancolia que trazes vestida

Sinto a minha pele renovada,

Não sei o que perdi

Talvez os poemas que não escrevi

Atados a um tempo que parou

Entupida de silêncio

Mas algo no outono me despertou…

Chegada da Primavera

Chega leve e descontraída

Como sempre bem parecida

Envolvida no seu jeito

Com um desfilar perfeito

Traz na bagagem

O sorriso dos dias

O findar das horas sombrias

A fragrância das palavras

Que esvoaçam do coração

Soltas, livres para acolher a nova estação

Com a ousadia de seguir viagem

Aceitando a leveza da tua aragem.