
Vejo as árvores recolhidas
Metaforicamente despidas
A erguerem o silêncio,
Não sei se estarão perdidas
Ou simplesmente a descansar
O cansaço da altivez
Que o nosso olhar
Se habituou a ver…
…Talvez…

Neste lugar habitado
Num tempo constante
Jamais adiado,
Ouço a voz da terra
Firme,
Como quem comanda a vida
E rasga o caminho
Passada a passada,
Murmurando silêncios
Num rumo apressado
Sem nunca deixar o corpo tombar
Pelas horas de cansaço
Neste tempo inconstante
Por vezes desabitado
Que parece estar sempre atrasado.
Ouço a voz da terra
Presente na raiz da vida…

São as cores da terra a tocar o céu
O sol a despir o véu
Para descer a encosta e pintar o vinho
Que lhe dará cor e nome
Enquanto o vento acena os barcos que passeiam no rio
Só os pássaros quebram o silêncio
E o olhar descansa
No corpo que já se deixou embalar
Nesta paisagem que mais parece uma moldura
Que até o pensamento transfigura
No tempo que se sente pausar
Tal é o ponto de pureza
Presente na beleza
Onde nos sentimos repousar
…Douro…

Chegou dezembro
Frio e molhado
Procura um regaço
Um lugar aconchegado
Onde aquecer o tempo
Para sentir de novo a pele
No corpo pelo vento moldado.
Chegou dezembro
Mas a casa está vazia
Fechada e sem companhia
Não há quem a venha habitar
Faltam abraços para reconfortar
O ano está cansado e triste
A pandemia não o deixa sossegar.

A cada passo
Sinto a liberdade das árvores
Invadirem o espaço que é do céu,
O rasgar do vento
Que penetra em cada momento
No agitar da folhagem
Que bate forte no silêncio
Levando e trazendo a aragem
Como se fosse roubar o pensamento.
A cada passo
Piso o chão preso pelas raízes
Que sustentam a altivez do teu corpo
E o meu olhar fica a flutuar
Entre a quietude do azul do céu
E as folhas verdes que o vão enamorar,
Pela distância tudo parece sereno
As árvores continuam crescendo
E o caminho vai-se fazendo.
Passo a Passo…

Mais um dia que amanhece
Vestido com asas
Tanto aparece como desaparece
Com pressa de chegar
Onde a felicidade se deixa apanhar.
Mais um dia que anoitece
Despido ao luar
Tanto adormece como espairece
Com vontade de sonhar
Até encontrar um lugar para pousar.

Não sei se será o frio
Ou talvez o arrepio
Que faz ventar o dia
E alimenta a correria
Da chuva que cai sem parar
E na terra se vem abrigar.
É o céu que silencia
O barulho da chuva que não finda
Gota a gota mudam os odores
E a beleza que acolhe a natureza
Veste-se de olhares e novas cores
Além da chuva que cai ainda…

Agora que a primavera chegou
E o inverno já se sente recolhido
O corpo inverte o sentido
Rumo à nova estação
Onde o coração se veste de cor
E a pele floresce
Como se fosse uma flor.
Agora que o inverno acabou
E a primavera já se instalou
O olhar despe-se do frio
Abriga-se na beleza
No toque do perfume verdejante
Que o oficio da natureza
Espalha numa simbiose radiante.
Uma doce leveza se plantou
Dentro de mim
O amor despertou
Agora que a primavera chegou…