O que temos?

O que nos separa da vida

Não é o tempo que não temos

Nem os dias apressados que vivemos

Não são as pessoas que não vemos

São as palavras que não dizemos

São as emoções que escondemos

São os olhares que perdemos

São os vazios que não preenchemos

O que nos separa da vida

É o que temos e não percebemos…

Teremos que ser iguais?

Era uma vez

Entre tantas outras vezes

Em que abro a cortina

Para destapar o olhar

Mal dormido,

Colapsado pelo tempo

De madrugadas ensonadas

Sendo a noite pelo dia arrancada

É hora de entrar na caminhada

Pedaço por pedaço,

Em gestos que se repetem

Para sermos seres iguais

Com movimentos postiços

Para não deixar cair a perfeição

O topo íngreme da ambição

Por onde muitas vezes

O corpo se deixa levar

Entre tantas outras vezes

Segue mudo nesse deslumbrar

Vivendo uma vida contada

Sem nada para contar…

…Toca a viver…

Enquanto as horas vagueiam no meu corpo

Já o tempo rasgou os dias

E percorreu o sentido da minha pele

Sobrevivendo a esta fugaz passagem

Até entrar na memória do coração,

Soltando-se uma explosão de silêncio

E ouvindo-se o tempo despir

Uma palavra que ficou por dizer

Um sorriso apagado

A promessa prometida e não cumprida

O som de uma noite mal dormida

A vida esquecida de ser vivida,

E enquanto as horas passam

Olhamos para a vida já envelhecida…

Viagem do tempo

Nesta viagem do tempo

Fugaz e a alta velocidade

O corpo embarca a todo o vapor

Sem colher dos dias o sabor

De paragem em paragem

Sem deixar a pele respirar

Tamanho é o ritmo do caminho

Que cada olhar segue mudo e sozinho

Levando na bagagem

A saudade de encurtar a distância

E deixar para trás os passos apressados

Os sorrisos fechados,

E de devolver aos dias a importância

De viver estação a estação

Com um bilhete de felicidade…

Sentir Janeiro

Embebida na luz que me rodeia

Aconchego-me no amor

No presente com que a vida me presenteia

Na imensidão de emoções que põe ao meu dispor.


Pousa no meu colo um novo ano

Deixo algumas memórias para trás

Traço novas marés no oceano

Comigo segue a melodia do mar e da paz.


Abro o coração e deixo as palavras entrar

Abrigo-me no silêncio saboreando poesia

Dou ao olhar liberdade para voar

Recebo Janeiro semeando um sorriso em cada dia.

… Tempo …

Quando as palavras não saem

São as lágrimas que caem

Só o silencio me consegue ouvir

E só o coração me pede para não desistir.

Há dias em que o tempo não está para sorrir

Perco o alcance do que tinha alcançado

Procuro-me para me voltar a encontrar

E nesta viagem,

Poemas melhores hão de vir

Acredito que as palavras nem sempre me traem

E o tempo é uma constante

Liberto-me de lugar em lugar.

Dezembro

Chegou dezembro

Coberto de frio

Adivinhando o inverno

No alto do seu ar pomposo

Não se sentindo menos majestoso

Por ser o último a chegar.


Traz o aconchego do lar

Abraça histórias do ano prestes a findar

Sem tristeza de ver as folhas caindo

Abre espaço para ver a família reunindo

São dias vestidos de luz e união

Dezembro completa-se com muito amor no coração.

E de repente o outono

E de repente o outono

Retratado no tempo

Nas manhãs despidas pelo vento

Entre as folhas amarelecidas

E na chuva que vem espreitar

Os dias que se deixam encurtar.


E de repente o outono

Um novo tempo a acontecer

Gestos que amadurecem o olhar

Vontade acesa de recriar

A estação que a terra vai vivenciar

E que na pele vem pousar.