O tempo a tempo …

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Escuto o tempo
Que habita dentro de mim
Sereno e certo de me conhecer
Faz-me sonhar e acordar
De janela aberta ao mundo
Diz-me que algumas vezes
Deixei de voar
Com medo de me desencontrar,
Ou de não encontrar o tempo a tempo
De continuar.

Há um tempo que me bate no rosto
E me vai enrugando a pele
Talvez não goste de me ver
Sempre com o mesmo parecer,
Faz-me acreditar que a essência
É o tecido que veste a aparência
O melhor espelho que posso ter
É olhar o tempo sem medo de o perder
O que habita dentro de mim
É a vontade de viver.

…Madrugada…

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Sinto a madrugada
Cair deslumbrada
No meu olhar quieto
Ainda suspenso,
Vestido pela noite
E pelo sono que sobrava
Do longo caminho
Pelo corpo alimentado
Desde que adormeceu
Até ter sido acordado.

Sinto a madrugada
Vivaça e de cara lavada
Amanhecer no meu leito
Ainda desfeito,
Desarrumado pelos sonhos
Que repousam na pele
Sem pressa de ver o dia
E de despir os desejos
Que a noite enamorou
E o meu silêncio guardou.

…entre voos…

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A vida passa pela espessura
Que cobre as paredes dos dias
O tempo espreita pela ranhura
Por onde os anos atravessam
Levando as horas pelo caminho,
E neste vai e vem constante
Esvoaçamos como pássaros
Num bater de asas
Contra a corrente do tempo
Para quebrar a fechadura
Levantar voo e voar
Criar pouso e repousar!

Amanhã será tarde…

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Amanhã será tarde
Não quero adiar o que trago no peito
Não quero guardar a luz dos dias
Nem esconder o olhar que traduz alegrias
Quero preencher este coração pulsante
Nem que seja por um instante
Dar corda à vida que sustenta este meu jeito
Sentir que o tombar das horas é um destino perfeito.

Amanhã será tarde
Serei levada com o vento
Deixarei as palavras sem movimento
Serei abrigo para a escuridão
Num tempo que escorrega com exatidão
E cai no meu corpo que vagueia sem pensamento
Porque o hoje se perdeu deste momento
E resgatou todos os sentidos para outra dimensão.

Não quero deixar cair o olhar
Nem perder a lucidez de amar
Nesta vida que acolhi
De alguém muito especial a recebi.

Porque amanhã será tarde…

 

 

E de repente…

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E de repente,
Oiço passos que estremecem
Nas ruas frias e molhadas
Folhas e folhas amarelecem
Pela chuva e pelo vento são levadas
Arrastadas pela melancolia
Que o inverno traz ao dia.

E de repente,
Sinto os dias a escurecer
As árvores despidas a tremer
O correr dos passos que arrefecem
Entre as conversas que aquecem
O crepitar da multidão
Que embrulha a pele na nova estação.

De repente
Leve ou levemente,
Teremos o inverno presente…

Será?

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Lembras-te…
Do sorriso que embriagava o teu riso, tantas vezes aparecia de improviso, a gargalhada que enfeitava o meu rosto… como os nossos braços abraçavam o tempo que passava, sem pressa, cúmplice do nosso tempo, onde repousávamos os corpos e saboreávamos os beijos entre os desejos que ponhamos a amadurecer, sempre que íamos ver o sol-posto ao entardecer.
Lembras-te?
Como era fácil rodopiar com o vento e voar na sua liberdade.
Já não encontro mais esse tempo, terá fugido de mim?
Todos os meus espaços estão agora ocupados, até o riso parece ter perdido o juízo, esconde-se deprimido.
Olho para o tempo e já não o reconheço… é como se caminhasse do avesso.
Será que o vento mudou de direção ou simplesmente se tornou travesso à cumplicidade do nosso coração…
Será?

Amanhecer

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Aquieto-me
Com a última réstia de sol
Que espreita pela frincha
E se derrama no meu rosto
Contemplando o vagar
Do corpo que descansa
Sobre o dia quase findo
Que pousará no horizonte
Onde a luz recolhe
E levará o entardecer
A cair no anoitecer.
Aquieto-me
No olhar que se despe
Na inocência da madrugada
E reveste de sombra a noite
Até ao nascer das horas
Que acordam o amanhecer.

 

Envelhecer

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As folhas vão caindo
Quem sabe desistindo
Daquilo que as prende à natureza
Também os anos vão tombando
E a beleza derrubando
Porém,
A vida ensina-nos
A acrescentar amor
À idade que vamos somando
E força para continuar a crescer
Na arte de envelhecer.

… Enquanto as folhas vão caindo…

Talvez um dia…

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Sinto-me a encolher
No mundo que não para de crescer
O coração transborda do peito
Já não cabe no seu lugar
Bate insatisfeito
Não sabe como amar
Neste tempo que se traduz breve
Onde a vida começa e acaba
Na leveza de um olhar.
Vadio o silêncio
Que guarda este meio jeito
No corpo que se tornou mudo
Para não ser atafulhado com tudo.
Doí-me ter que escolher
Entre a vontade do parecer e do ser
Recolho-me nas palavras
Tantas que ficam por dizer
Talvez um dia
A terra as vá colher…