Somos o caminho!

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Neste deserto povoado
Vazio,
Ecoa um silêncio agitado
Encoberto
Por um respirar sobressaltado
E um olhar desbotado
Que se estende na multidão
Carregado de solidão.
Ajustam-se os corpos
Cansados,
Sugados pelas horas
E pelos dias alimentados
Onde a memória se arrasta
Para não perder o caminho
Sendo a vontade de envelhecer
Destino constante de viver.
Somos a pele que nos abraça
Num ritmo que por vezes fracassa
Sem quebrar o rumo
Somos os sonhos que sonhamos
Qualquer a idade que tenhamos!

Entre o dia e a noite

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A noite devolveu-me ao dia
O corpo desembrulha-se para acordar
A pele ainda transpira a fragrância de sonhar
O pensamento teima em não se levantar
As palavras ainda a dormitar
Estremecem com o sol a espreitar.

Encontro-me com o espelho num breve olhar
Não lhe dou tempo para me enganar
Pinto o rosto com um sorriso singular
Poiso no corpo asas para voar
E ouso saciar a vontade de viver o dia
Até o cansar e a noite me vier buscar.

Palavras… nuas

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Agora
Que a terra rodou
E o verão timidamente chegou,
Mudo apressadamente de direção
Dou às letras diferente inclinação
Enquanto dispo as palavras
Nesta liberdade da imaginação
Para que sintam a leveza
O sorriso da natureza
Que veste a nova estação.

 

Quero ser habitada…

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Fiz de ti
A minha morada
Quero ser habitada…

A casa pode ser recatada
Caiada,
À beira mar plantada
Talvez,
Uma flor à entrada
Uma borboleta pousada
E um bando de passarada!
Uma casa iluminada
Entre sonhos
Debruada…

É para mim
A morada
Onde vou ser amada…

 

Entre o luar…

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Da janela do meu quarto
Vejo a noite já fechada
Talvez um pouco ensonada
Embrulhada na madrugada

Sinto o aroma doce do vento
Que sussurra leve ao relento
Embala a noite no pensamento

O meu olhar embriaga-se na lua
Tímida esconde a sua face nua
No corpo que cresce como míngua

O céu no aconchego do anoitecer
Rouba-me o sono para adormecer
Vejo o sol abrir o amanhecer
Da janela do meu quarto.

Talvez um dia…

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Sinto-me a encolher
No mundo que não para de crescer
O coração transborda do peito
Já não cabe no seu lugar
Bate insatisfeito
Não sabe como amar
Neste tempo que se traduz breve
Onde a vida começa e acaba
Na leveza de um olhar.
Vadio o silêncio
Que guarda este meio jeito
No corpo que se tornou mudo
Para não ser atafulhado com tudo.
Doí-me ter que escolher
Entre a vontade do parecer e do ser
Recolho-me nas palavras
Tantas que ficam por dizer
Talvez um dia
A terra as vá colher…

Campo aberto

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Preciso desse campo aberto
Onde o olhar se deixa ir
Na abundância do tempo
Onde as mãos repousam
Dos socalcos da vida
E o amor fermenta
No intenso aroma
Que o vento traz
E nos corpos se desfaz.

Não tarda rebenta a semente
E o grão armazenado
Pela terra será criado
O céu abre-se de cor
Entre o verde do respirar
E o coração pronto para amar
O fruto encontra poiso
Raiz fértil para se libertar
E mais um ciclo completar.

Queria ser uma estrela!

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A noite reluzia a elegância do manto que lhe movia o corpo, enquanto o silêncio acentuava os passos descomprometidos que pisavam a calçada.
Silhueta vincada pelo mistério que se fazia sentir em cada esquina que dobrava, entre o reduzido feixe de luz e a sombra que a perseguia.
Dada a um movimento de leveza que lhe desnudava ainda maior beleza.
Amante confessa das horas que cobrem os dias e os pintam de uma escura tonalidade, a penumbra. Vivia a noite como mais ninguém a via…
Conhecia de cor os lugares cobertos pelos luares que incendiavam o céu.
Entre rumores dizia-se que apenas o retrato da noite a preenchia e todas as noites o seu sonho se cumpria.

Queria ser uma estrela!

A idade dos dias

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Se ao menos eu soubesse
Viver a idade dos dias
Como quem colhe os aromas
E semeia nas esperas do tempo
Um silêncio que mantivesse
O diálogo da minha voz,
Talvez eu pudesse
Sentir o cair das horas
Na ilusão de as ter só para nós!

Se ao menos eu soubesse
Viver a idade dos dias
Como quem tece a felicidade
E despe da pele a saudade
Num olhar que iluminasse
O que trago dentro de mim,
Talvez eu coubesse
No vagar do passar das horas
E não as deixasse ter fim!