
Segredo-te os meus desejos
No acordar da manhã
Ainda orvalhada,
Perfumada pela noite
Que adormeceu estrelada
No silêncio dos teus beijos.
Nasci para o dia!

Segredo-te os meus desejos
No acordar da manhã
Ainda orvalhada,
Perfumada pela noite
Que adormeceu estrelada
No silêncio dos teus beijos.
Nasci para o dia!

As palavras apareceram por acaso
Encontramo-nos no mesmo olhar
Sem nada interrogar,
Conversamos sem o tempo contar
Cúmplices na linguagem
Na tranquilidade da viagem
Que nos levou ao mesmo lugar.
As palavras apareceram por acaso
Desafiando as horas do dia
Entramos no mesmo divagar
Despindo no silêncio a ousadia
A linha que conjuga o pensamento
E derrama no corpo o movimento
A vontade de viajar na poesia.

Olha para mim
O que vês?
Um pedaço de céu
Num dia encoberto
Outro de sorriso aberto
Que nasce na claridade
Certa de querer voar alto
Desprender-me do véu
Amadurecer o pensamento
Tecer um sopro de felicidade
E espalha-lo com o vento.
Olha para mim
O que vês?
Um braço de mar
Num navegar destemido
Para a bom porto chegar
Mergulhar na profundidade
Na transparência da verdade
Libertar o olhar no horizonte
Deixa-lo ir nas marés
Na força das águas
Que moldam o sentido.
Olha para mim
O que vês?
Um pouco da terra
Que a terra me oferece
Raiz presa à vida
Dia a dia que amadurece
Semente que baila no ar
Palavras que guardo
Colhidas entre cada soletrar
Sou asa que poiso
Onde houver amor para amar.
Olha para mim…

Neste sopro de vento
Entre o pulsar do pensamento
E o sangue que nos corre nas veias
Esvoaçamos como semente
Agarrados às voltas da terra
No tecer dos dias
Tantas vezes sem destino
Desfiando o novelo do tempo
Esticando o fio da nossa existência
Movidos pela construção do ser
Sem saber se vamos caber
Nesta vida que nos viu nascer.

Quando o caminho é feito devagar
O dia-a-dia teima em não avançar
Não há pressa de chegar
O destino não é mais que as memórias
Que o tempo foi amadurecendo
E que o olhar vai perdendo
Estamos envelhecendo.
Quando o corpo tomba de cansaço
E a solidão toma conta do espaço
Os sonhos já não saem do regaço
A realidade não é mais que as histórias
Que o tempo ajudou a construir
As lembranças do nosso existir
A serenidade de continuar sem desistir.
Quando o pensamento parece vaguear
E as palavras começam a escassear
Somos monólogos a dialogar
A vida assenta na memória das histórias
Que o tempo a seu tempo foi guardando
Nos afetos que nos vão alimentando
A idade que o corpo vai somando.

Piso o chão da tua terra
Com as palavras a flutuar
Aprendi a fiar o tempo
A tecer os gestos para não te magoar.
Todos os dias nasces para o dia
Não há sombra que te faça parar
Indiferente ao caminho
Ao cansaço das horas
Entre as demoras
De nos ver partir e chegar.
És terra
Sinto o pulsar do teu respirar
Derramas vida para lá da vida
Um dia serei pó do teu pó
O chão que outros irão pisar.

Ainda que
O sorriso não apareça
E a vontade esmoreça
Eu sei
O tempo não me dá tempo
Não espera por mim
Mesmo que
Isso me entristeça
Haverá sempre quem se reinvente
E não se lamente.
Ainda que
O olhar se distancie
E o coração não se pronuncie
Eu sei
Estarei sempre a tempo
De escolher o melhor de mim
Agarrar a liberdade
Tecer um novo recomeço
Virar a vida do avesso
Não aceitar viver pela metade.

Como a madrugada silencia a noite
Convidando o sol a acordar
A trazer consigo a manhã
Luzidia e perfumada,
Também os meus olhos
Se abrem para os teus
E o olhar se veste para o dia
Devolvendo ao corpo as palavras
Despidas pelo afeto
No refúgio de todos os sentidos
Onde nos encontramos
Perdidos…

O sentido que me reveste a pele
Por vezes interrompe o tempo
Hiberna em memórias apagadas
Cai em conversas resignadas
Até sacudir de novo as palavras
E o corpo renascer inteiro
Da pálida sombra
Que lhe envolve a essência
Destapando os movimentos
Onde tece a vontade e agradece
O chão que a terra lhe oferece.
Embarco sem demora
Até ao cais que me devolve à vida.

Observo a quietude do teu voo
Livre, solto
Onde o vento molda a vontade
E ajusta o pensamento
De seguir em frente
Sem suspender o momento
De dar asas à felicidade.
Abro o meu coração
E aprendo a voar!