As Palavras

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Como eu saboreio as palavras
Doces, sentidas ou acarinhadas
As amargas são menos apreciadas
Mas nem por isso deixam de ser palavras.

Gosto das palavras arrumadas
Coloridas e bem ritmadas
Gosto de as escrever bem alinhadas
Para não serem esquecidas ou apagadas.

As palavras são como lâminas afiadas
A alma sangra quando mal pronunciadas
Ao contrário ao ouvido segredadas
Alegram o coração ao serem tão desejadas.

Será gente?

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Há gente que vive da gente
Seres com muito pouco ser
Incapazes de traçar uma linha coerente
Julgam-se detentores do poder.

Convincentes da verdade que mentem
Olhar reduzido ao próprio umbigo
Veem nos outros algo que não sentem
Exibem-se como sendo o próprio inimigo.

Espantam os fantasmas lavando o rosto
Afogam na água que escorre pela identidade
Ressaltam os contornos vincados de desgosto
Hibernados na concha que esconde a personalidade.

Acorrentados ao delírio momentâneo do prazer
Saboreiam a cobardia de olhos vendados
Tal é o estilhaçar do espelho pelo falso parecer
Reduzidos ao espaço onde vivem camuflados.

Hoje, amanhã e depois…

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Hoje enquanto espero pelo amanhã
Quero dar asas ao tempo e com ele voar
Hoje não sei quem sou, talvez o tempo me faça lembrar.
Olho em frente e deixo-me ir no tempo presente
Estou na estrada do sonho, deslizando pela corrente.
Quero reinventar os espaços, soltar o eco da minha voz
Mostrar que existo, saborear o tempo que passa por nós.
Seguirei o caminho até ti chegar
Embalada nas palavras que te irei pronunciar.
Quero os meus lábios nos teus tocar
Entregar o meu corpo ao deslizar das tuas mãos
Como quem acosta numa tempestade de paixão
Se preenche lentamente sufocando a respiração.
Quero ser a pétala da tua fragrância
A essência que te envolve os sentidos
Misturar o perfume dos corpos
Absorvidos em gestos destemidos.
Quero pintar o tempo contigo
Hoje, amanhã e depois
Colorir o amor que existe entre nós dois!

Regressa

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Partiste cedo
Ainda o dia dormia
No escuro e sozinho
Escolheste o caminho
Por onde nem gente havia.
Na memória levas os dias
De um sorriso rasgado
O brilho de um olhar enamorado.
O meu retrato ficou mais pobre
A minha alma ainda hoje encobre
O vazio da sombra que me assolou
A tristeza que no meu coração se instalou.
Balbucio palavras na esperança de as ouvires
Abraço o vento para sentir o teu cheiro
Alongo o olhar para ver se te vejo
Afogo as lágrimas na água do ribeiro
Onde outrora namorávamos com desejo.
Todos os dias anseio o teu regresso
Partiste em busca de sabedoria e sucesso
Distante o horizonte onde adormeces
Tamanho o leito onde me deito
Durmo acordada neste quarto desfeito.
Abro a janela para o meu amor esvoaçar
Levar-me nas suas asas até ti chegar
Somos dois corpos em liberdade
Duas vidas unidas até a eternidade.

Encontro

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Não sei que dia é hoje
Perdi-me na contagem das horas
Talvez seja um daqueles que sempre demoras
Enquanto eu espreito pela janela o horizonte
Escuro e vazio, sem nada que se conte
Apenas o tempo, que corre sem pressa
Me faz companhia sem qualquer promessa,
Nem compromisso de um dia voltar
E ainda me encontrar naquela janela a olhar.
Vagueio na sombra deste quarto silencioso
Com o tique taque do coração ansioso
Mais parece um vício que consome
Uma ferida que dói e destrói
Num filme dramático sem herói.
Que busca infindável é esta?
Entre cada partida e chegada
Descobri que não há lugar para mim
Cheguei atrasada, a lotação estava esgotada.
Tanta espera, tanta espera para nada.
Fiquei perdida algumas vezes
Atada ás teias do ser humano
Ecos de um comportamento insano
Transformados em seres por engano.
Ainda haverá tempo para mim?
Corro depressa para reinventar os sentidos
Não espero mais pelos minutos perdidos.
Estou a caminho, saberás de mim
O trilho da felicidade é longo
Hoje sei que não tem fim.

Longa caminhada

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Que longa é a caminhada
Que íngreme o trilho que tracei
Tanto pó no corpo levei
Sem nunca abandonar a estrada.

Como era denso o horizonte
Trémula a minha imagem
De sol a sol recebia coragem
Saciava o cansaço em cada fonte.

No silêncio uma teia confusa
Subtil emaranhado no pensamento
Percorro esta terra sem movimento
Ausente de vida como se fosse reclusa.

Estou prestes a chegar
Já avisto o arco-íris colorido
Outrora cinzento e escondido
Hoje deu lugar ao sol para brilhar.

Já sinto o teu olhar, o som da tua voz
Acordei presa a muitos laços
Tantos como os teus abraços
Festejo a vida, brindemos a nós.

Olha-me

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Olha-me no olhar
Dos meus olhos
Desde a nascente até à foz
Onde as águas se cruzam
Se inundam dentro de nós.
Toca-me com o teu olhar
Como as tuas mãos me tocavam
Quando os corpos se amavam
De prazer calavam a voz.
Diz-me com o teu olhar
O que as palavras não sabem dizer
Em silêncio o coração irá ver
Que nos olhamos e não estamos sós.

O meu lar…

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Espreito pela janela entreaberta
O tapete de flores que cobre a terra
Absorvo a tranquilidade que desperta
Os sentidos numa nova descoberta.

O meu olhar estende-se na paisagem
A minha alma apega-se ao sossego
Retrato-me numa nova imagem
Encontro o prazer do aconchego.

Já não há sombra no meu caminho
Despedi-me do silêncio e do escuro
Enterrei o sentimento de desalinho
Parto à procura de um lugar seguro.

Hoje conheço os contornos deste lugar
Outrora um labirinto sem fim
Sinto leveza para receber e dar
Deixo o retrato que fizeram de mim.

Salto para a outra margem
Com vontade de vencer a emoção
Não levo angústia na bagagem
Apenas um secreto amor no coração.

Está terra será o meu novo lar
Aqui há um espaço íntimo e profundo
Um céu com estrelas a brilhar
Paz, amor e tudo o que me liga ao mundo.

Sem palavras

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Caminho lado a lado
Em silêncio, sem saber o que dizer
Procuro as palavras certas
Desta vez não te vou escrever.
Há palavras que nos tocam
Cada gesto é uma letra
Um toque suave que penetra
Desliza no corpo com prazer.
Há palavras que nos beijam
Nos sufocam a respiração
Prendem e libertam os sentidos
Nos envolvem numa linguagem de atração.
A cada sílaba junto um sorriso
Tento verbalizar de improviso
A vontade de te ter por perto
Recebo-te de coração aberto.
As palavras são o eco da minha voz
Gosto de palavras simples e coloridas
Algumas escondidas, outras alegres e cheias de cor
Procuro as palavras certas para declarar o meu amor.

Primavera

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A brisa traz o canto dos pássaros
O cheiro doce do rebentar dos frutos
A frescura do desabrochar das flores
Um passeio repleto de beleza e cores.

O sol nasce mais cedo
Desfolhando um sorriso no teu rosto
Acentua o brilho do teu olhar
Nas noites que passas ao luar.

Tiras o manto da tua alma
Semeias a essência dos sentidos
Danças ao sabor do vento
Espalhas o aroma do teu sentimento.

Entre o entardecer e o anoitecer
Espreita o sol que por vezes se esconde
No rodopio de conversas e alegria
A primavera liberta o poder da poesia.