
Embrulho-me
No aconchego da tua pele
Como se fosse tecido
Macio e aveludado
O meu corpo fica assim preenchido
Mas o coração permanece destapado
Livre para te receber e ser amado.

Será verdade
Que temos a memória
Talhada de pedaços
A pele carregada
Como uma silhueta de estilhaços
E o corpo vagueia
Num corredor de mentiras
Entre lapsos de tempo
Corrosão de cansaços
Lágrimas escondidas
Palavras perdidas
Horas fugidas
E promessas quebradas
Será verdade?

De mãos vazias
Mas estendidas ao mundo
Vagueia pelas ruas
Um olhar,
Um silêncio vagabundo
Que se mostra clandestino
Perdido na penumbra
Como se andasse sem destino.
Temido pelo tempo
Entre um passado vivido
E um futuro talvez esquecido
Este olhar,
Embora um pouco desajeitado
Não é alheio à miragem
De ver o céu estrelado
E de com ele seguir viagem.
Um olhar
Que hoje é meu
Amanhã poderá ser o teu
De mãos vazias
Mas abertas a cada acordar
Onde nasce sempre um novo olhar…

O dia amadurece
Como sendo um fruto,
Um rosto que envelhece
Semente deitada à terra
Colheita que a terra nos oferece.
As horas rodeiam a vida
E a natureza não fica desapercebida
Abre mão à ceifa
Que leva consigo o verão
E num sopro traz o vento
Debulhando o grão da nova estação.
Entre as folhas caídas
E as árvores que ficarão despidas
O olhar permanece
Atento ao desnudar
Que no outono acontece…

Vou sacudir as horas
Para dar repouso aos dias
Estender o tempo,
Riscar o cansaço
Para dar ao corpo espaço
De alargar o sorriso,
Fintar a correria do dia
De olhar vadio
Ao acaso,
Pausando o pensamento
Desejo sadio
De quebrar a rotina
Em gestos sentidos e merecidos
Pausando….

Será este sentir que trago no peito
Que me desarruma o corpo
E me sussurra o pensamento quando me deito
Enquanto me despe o olhar
Desejoso pelo teu corpo albergar.
Será este rasgar que sinto na pele
Desassossego para em ti sossegar.
Será?

Traço pontes com o olhar
De tanto imaginar
A liberdade que as palavras
Ao longe
Podem alcançar.
Ao perto
O meu olhar é indefinido
Flutua como perdido
Com dificuldade de avistar
A travessia que quero rasgar
Com os poemas que trago no olhar.

A vida é este bater de asas
Voos altos com sonhos que tocam o céu
Haverá dias que permaneço no ninho
A costurar feridas e a reparar as asas
Esvoaçando e destapando o véu
Para voltar a voar.
Neste bater de asas
Hoje completo o meu quadragésimo quinto voo!
RETRATO
Hoje acordei
Abri a janela, o dia acaba de nascer
Ainda se observa o nevoeiro,
A frescura matinal, a transparência
Das gotas de orvalho que o sol
Irá fazer desaparecer.
Acordei, feliz com o que sonhei
Uma história, um capítulo de emoção
Vivido no tempo que o tempo até hoje não apaga,
O passado presente que acende a chama da nostalgia
Num mundo de sonhos e fantasia.
Senti o aroma, o cheiro a jasmim
A lembrança da infância
Os passeios pelo jardim.
A memória retratada
Do quanto eu queria crescer
E a menina pequenina deixar de ser.
Ansiava trocar as fitas e os laços
Abandonar as bonecas sem braços
Deixar de usar os vestidos de folhos
Tinha o mundo dos adultos na mira dos meus olhos.
O que tinha não era o que queria ter
O que hoje sou, sinto orgulho de o ser.
Bonita de uma simplicidade singular
Dotada de sensibilidade, a pele escura e expressividade no olhar
De cabelo rebelde e inocência na forma de estar.
Queria embarcar no meu baú dos sonhos
E todos os desejos alcançar
Partir para conhecer o desconhecido
Viver uma aventura sem parar.
Ir, ficar, nunca perder a vontade de lutar
Crescer é uma batalha difícil de travar
Quantos escudos de hipocrisia escondem a verdade,
Em rostos vadios de loucura e falsidade.
Aprecio a autenticidade da conquista
Aprendi a ver a vida de forma realista.
Descobri que a verdade não é verdadeira
A mentira é cruel e desalinha o sentido de orientação.
Amo, respeito, partilho sentimentos
Quero muito recordar os bons momentos
Envelhecer lado a lado, cuidar da nossa união.
Vivencio a experiência de ser mãe
Como algo que me aconchega o coração,
A alma quente e o amor que ficará para sempre.
A corrida da felicidade é trabalhosa
Tantas vezes encontramos a estrada sinuosa
Os desvios quebram o nosso percurso
São um desastre para o ego e mudam a vontade do nosso curso.
Eis que um vulcão de sentimentos explode
Agarro com alegria a vida que eclode.
Quero muito ser mimada, quero muito ser amada
Quero ter sonhos e sonhar
Quero abraçar e beijar.
Ofereço-te o meu retrato
Não precisas de o emoldurar, nem de o pendurar
A atribuição de valor está na forma de atuar
A importância que damos ao outro
Reflete-se na atitude e no bem-estar.
Procuro tranquilidade, encontro liberdade
Quero ser feliz, proporcionar felicidade.

Hoje sou maresia
Porto de abrigo
Cais de companhia
Quero entrar no teu mar
Afogar nos teus beijos
Mergulhar na tua rota
E deixar-me levar
Embarquei…

Não saberei como te dizer
Que o olhar que vês nos meus olhos
São lembranças
Que caem aos molhos
No corpo vestido de saudade
Pelo tempo que costurava as horas
Sem as transportar a todo o vapor
E o olhar respirava a fragrância do dia
Até lhe sentir o sabor.
Não sei bem como te dizer…