
Desabaram as palavras que habitavam em mim.
Uma a uma foram caindo pelo chão.
O meu coração ficou vazio.
Reinício.
Encontro-me em construção.

Pudesse eu ser asa
para te deixar voar.
Pudesse eu ser casa
para acolher o teu pousar.
Pudesse eu ser uma estrela
para o teu caminho iluminar.
Soubesse eu ser a leveza
para a dureza da vida apagar.
Soubesse eu ser o sol
para fazer o teu dia brilhar.
Pudesse eu ser a pele
para a tua pele agasalhar.
Soubesse eu colher a felicidade
para como presente te dar,
para que saibas
que o meu amor por ti jamais vai acabar.
É semente para uma vida inteira durar.

Recolhi os aromas da minha infância,
semeados na cadência do tempo.
Com eles soltaram-se os sonhos,
os segredos soletrados às estrelas,
a inocência da idade
que voava nas asas do vento.
Cada dia tinha um sabor,
um novo alento,
e as horas pousavam devagar,
livres,
dentro do meu olhar.
Guardo esta cumplicidade
com saudade…

Dizem que as palavras não têm tempo,
mas estão em constante movimento,
plenas de intensidade.
Encurtam a distância e medem a verdade,
escutam as conversas,
palavras entre palavras.
Traçam um caminho de cumplicidade,
deixando um rasto na memória,
conjugam-se entre o sonho e a realidade.
Hoje somos palavras,
ditas ou escritas.
Mais adiante somos
palavras recordadas ou apagadas…

O relógio prendeu-me o corpo,
não acordei com a madrugada.
As horas fizeram a sua própria caminhada,
não serei eu a entregar-te a manhã,
a minha rotina tão desejada.
Amanhã deitarei as horas no meu regaço
para não sofrer tal embaraço.
Quero iluminar o teu amanhecer,
afastar a fadiga das horas,
dar tempo ao dia para o teu viver.

Ouvi os queixumes do mar,
entristecido.
Já se tinha lamentado à lua,
desabafava sobre a terra
que por vezes amua,
flutua como as marés,
desorientada,
com o olhar longe.
Desgostoso,
o mar encobre-se no nevoeiro,
saudoso de lhe salgar a pele,
navegar no horizonte do seu corpo,
espalhar na brisa o que guarda no coração.
Sente pela terra um mar de paixão.

Se hoje escrevesse um poema,
escolheria palavras leves,
transparentes e coloridas,
como a alma do autor.
Um poeta madrugador,
vestido de vontade,
conjugando o olhar e o sentir,
expondo-se entre rimas e versos,
com o tempo que deixa fluir…
Nem sempre sei o que trago em mim.
Se hoje escrevesse um poema,
começaria certamente assim…