
Abro o meu olhar
e da janela do meu quarto
vejo a madrugada a erguer-se
e o silêncio a perder-se
no amanhecer
nas palavras que a manhã tem para me dar
no dia prestes a acontecer…
Bom dia!

O mar é meu vizinho
de tantas vezes que o vi
apenas hoje o senti naufragar
sozinho,
perdido à deriva no meu olhar.
Procurava refúgio
alguém com quem desabafar.
Já a brisa o tentava animar
dar rumo às marés
iluminando as madrugadas
como se fosse um farol
onde os corpos salgados
se vão abrigar
das tempestades do mar
de tanto ele amar…

E de repente o outono
retratado no tempo
nas manhãs despidas pelo vento
entre as folhas amarelecidas
e na chuva que vem espreitar
os dias que se deixam encurtar.
E de repente o outono
um novo tempo a acontecer
gestos que amadurecem o olhar
vontade acesa de recriar
a estação que a terra vai vivenciar
e que na pele vem pousar.

Ao fechar a porta
recolhi o olhar,
aprisionei as palavras,
senti a solidão entrar.
Consciente de ferir o coração
e de pôr os pensamentos a hibernar,
sacudo o tempo
e salto para a vida.
Dou liberdade aos dias para voar,
guardo o que é bom de guardar
e, ao abrir a porta,
sinto o vento a soprar
até a alma arejar…

Gosto de te ver
de olhar no teu olhar sarado
despreocupado
Sentir as tuas mãos livres
o teu abraço apertado
aconchegado
Ouvir em silêncio as tuas palavras
o teu discurso letrado
enfeitiçado
Mergulhar no odor da tua pele
no veludo acastanhado
perfumado
Trocar os meus beijos pelos teus beijos
esse sabor frutado
apaixonado
Gosto de dar sentido aos sentidos…