
Não tombes nas horas que vão cair,
Não deixes que o peso do tempo
te incomode.
Foge!
Segue a luz do dia a amanhecer,
Embriaga-te na vida.
E, se quiseres voltar,
Escolhe o entardecer.

Neste tecido onde sempre escrevo
Onde há folhas em branco,
Outras que rabisco e arranco,
Porque não fazem sentido,
Porque não dizem ao que vivo.
São traços de vozes
Sussurradas ao ouvido,
Momentos sem tempo,
Conversas trazidas pelo vento.
São folhas…
Folhas que agitam como nas árvores,
Folhas onde deixo tombar palavras,
Mudas,
Talvez para serem lidas,
Outras tantas para serem ouvidas.
No tecido onde escrevo,
Costuro os verbos entre as minhas mãos
E, em silêncio, vou buscar
Os versos que dormem entre as rimas
De um poema,
De um corpo,
Onde desperta o toque das palavras,
Talvez por serem aveludadas,
Talvez por serem acarinhadas.
Quem sabe…
Simplesmente amadas!

E, depois, veio o vento
A poeira assentou.
E, depois, vieste tu
O vento voou.
Ficámos sós!
Olhei-te,
Tu vieste ao encontro do meu olhar.
Os corpos tinham pressa
Queriam chegar a algum lugar.
Entre o desejo e o silêncio
Estávamos nós…
Arrastávamos a bagagem
À procura do caminho
Onde nos pudéssemos arrumar,
Onde despíssemos o avesso dos dias,
Esses dias difíceis de respirar.
Ficámos sós!
Cobrimos as mãos frias
Com as réstias das palavras
Que trazíamos na voz,
E ficámos sós
Entre nós!

Silhueta de domingo
Embalada pelo mar,
O meu olhar naufraga
Nos teus passos asseados
Quando te vejo passar…
Não há sombra no teu caminho,
Trazes luz
Que se estende ao horizonte
Até o sol parece brilhar mais.
Só eu, neste silêncio ondulado
Onde permaneço afundado,
Querendo um dia ser cais
De todos os teus domingos…

Pelo tempo que se faz sentir
Quero que saibas
Que na tua ausência
Não há sol,
As manhãs nascem viúvas
Enterradas em solidão.
As palavras são escassas,
E as tardes escondem-se nas chuvas
Nas horas que trazem a escuridão.
Quero que saibas
Que a tua presença
Traz aos dias a diferença
Do tempo que se faz sentir…

Amanheceu o outono
A manhã ainda se espreguiça
E as nuvens parecem ter adormecido.
O dia caminha a passo lento,
Talvez até um pouco abatido,
Mas, contrariando a direção
O outono chega firme e decidido.
No olhar dos nossos olhos
Há pressa na paisagem,
Parece haver um breve abandono
As folhas vão caindo
Deixando as arvores despidas,
As conversas viram de página
Ganhando um novo sentido,
A estação entra num novo horizonte
A vida segue vida,
Ao encontro da outra margem…