
As palavras foram saindo lentamente
Sem grande agitação.
Ficaram apenas algumas sílabas,
Para assegurar o batimento
Do saudoso coração,
Que por ti espera,
A todo e a qualquer momento…

O olhar seguiu
Sem pensar se era início ou fim,
Sem sentir que fugiu,
Se estava perto ou longe de mim.
Viu as nuvens agarradas ao céu,
Os desenhos lá pendurados,
Livres,
Expostos à imaginação
De sobrevoar o denso manto que cobre a terra.
Seguiu,
Unido pelo olhar que viu.
Tudo era perfeito,
Até questionar
Se tudo aquilo realmente existiu.
Quantas vezes o olhar
Se encontra perdido,
Até pousar e ser entendido!
Quantas vezes…

Dá-me a tua mão
Guardei-te um lugar perto de mim.
Vamos buscar a primavera,
Trazê-la para dentro da poesia,
Aconchegá-la nas palavras que florescem
Plantá-la num canteiro de margaridas
E pedir ao sol que apareça,
Que nos traga um sorriso,
Uma luz que nos fortaleça.
Vamos buscar a primavera,
Embalados por entre as pétalas
Que rodopiam no nosso olhar.
E, quando ela finalmente quiser chegar,
Perto de mim haverá sempre
Uma réstia de saudade
A desabrochar…

A chuva toca nas vidraças das janelas,
A música ecoa dentro de casa.
Embebo-me na melodia
E viajo sem bagagem,
Entre os movimentos que o corpo solta
E o acaso,
Sem qualquer compromisso,
Alheio à idade,
Afastado da rotina.
Livre,
Simplesmente a ouvir a voz,
A voz que transparece verdade,
Feminina.
As palavras vestidas com vaidade
Despertam-me.
Enquanto a chuva bate lá fora,
Danço,
A poesia que ouço,
A poesia que escrevo…
Sou mulher
Hoje e outro dia qualquer.

Olho para a noite
Através do dia que finda,
Pelo céu que entardece,
Pelo escuro que dita segredos
Que ninguém conhece…
Enquanto uns dormem
Outros sonham.
Entre os que nascem
E gritam para a vida,
Há os que choram
A dor da partida…
Olho para a noite
Através do silêncio que cresce,
Pelo peso que se aninha nas pálpebras,
Pelo cansaço que pousa no corpo,
Até entrar no dia que amanhece…
Enquanto uns voam
Outros caminham.
Entre os que veem a luz
E respiram liberdade,
Há os que se fecham na escuridão,
Roubando aos dias a felicidade…
Olho para a noite,
E gosto de olhá-la!

Demorei o olhar
Nos olhares sentados
Nos bancos do jardim…
Nesses assentos de vida,
De vida respirada
Tantas vezes
Em horas aceleradas,
Pela rotina que vestia os dias.
E agora?
Nos bancos do jardim
Repousa o tempo,
O tempo enamorado nas lembranças
Que perduram no silêncio,
À espera de encontrar quem as possa escutar.
E agora?
Nos bancos do jardim,
À sombra de um corpo envelhecido
Moldado pelas dores da solidão,
Cabe o repouso de um andar cansado
Que, ao abrir os olhos, vê o passado.
Tantas vezes
Pousou o olhar nos olhares sentados
Nos bancos do jardim…
E agora?