Retrato-me com simplicidade na forma de ser e de estar,
aprecio a autenticidade de cada momento, gosto de ter sonhos e sonhar e saborear a vida de forma singular.
Descrevo-me através das palavras e dos versos que partilho com prazer e dedicação.
São pálidas as noites vazias as horas que sussurram por entre os olhos cerrados e as sombras deitadas sob o corpo coberto pelos sonhos acordados, que teimam em não adormecer até ao romper da madrugada.
Revisito um lugar, não um lugar qualquer, a memória.
Vejo o rosto que brincava entre os passos onde moravam todos os afetos.
A infância, esse lugar inocente onde se falavam todas as línguas, onde cabiam todas as brincadeiras, onde as portas estavam sempre abertas ao tempo e para o tempo…
Hoje sinto que esse lugar se afastou. Talvez pela idade, não sei, simplesmente na memória ficou…
Não ponho as memórias à mesa, não as sirvo quentes nem frias. Quem sabe, um dia, sejam o meu prato preferido. Mas hoje não, ainda não são a minha iguaria.
Por acaso mudaram os dias, os dias que findavam cedo, cedo no silêncio das palavras, palavras que anseiam liberdade, liberdade para dialogar mais tempo, tempo que urge do ontem para o hoje, hoje que é um degrau para amanhã.
Amanhã é um caminho longo, longo para deixar escorrer a luz, a luz que preenche o vazio, o vazio das dúvidas que me habitam, que me habitam e perseguem na incerteza, incerteza que tantas vezes estilhaça, sem saber se é o momento de deitar para fora o que está dentro de mim.
Lembro-me de esperares pela primavera para partires. Talvez quisesses levar esses dias que nascem em silêncio e, passo a passo, se vestem de cores e frescos odores.
Lembro-me de esperares pela primavera para partires. Talvez para que as nossas lágrimas fossem rega para as flores do teu jardim.
Como tu gostavas da primavera, de mexer a terra e dela colher amor, amor que semeavas com sabedoria e simplicidade…
Relembro-te, entre a saudade que dói, e a saudade que se veste de vaidade ao falar de ti… e ao sentir que vives em todas as minhas primaveras.