…O que me habita…

No espaço do meu corpo

Habita a ausência e a presença

Entre o querer e o não querer

E cresce um lugar chamado ser

Que me diz do que sou feita

Entre o que deixei por fazer.


Descreve a pele que me veste

Sem julgar ou repreender

Ilumina o caminho do meu caminhar

Faz-me promessas sem se comprometer.


Habita-me um espaço que só eu o sei entender…

Dama

Já lhe passaram pelo rosto

Muitas madrugadas

Muitas sílabas mal contadas

Finge sem saber fingir

Facilmente lhe apanham o sentir

É dama,

Rodopia sem posar

Os holofotes não lhe alcançam o olhar

Procura na luz caminho para andar

Não é alimento para a fama,

Mostra-se sem se mostrar

É comprometida com tudo o que ama

É dama,

Facilmente lhe apanham o sentir

Porque vai deixando as palavras cair

No regaço de poemas

Sabendo que não são colo de plateias

São rimas que lhe percorrem as veias…

Teremos que ser iguais?

Era uma vez

Entre tantas outras vezes

Em que abro a cortina

Para destapar o olhar

Mal dormido,

Colapsado pelo tempo

De madrugadas ensonadas

Sendo a noite pelo dia arrancada

É hora de entrar na caminhada

Pedaço por pedaço,

Em gestos que se repetem

Para sermos seres iguais

Com movimentos postiços

Para não deixar cair a perfeição

O topo íngreme da ambição

Por onde muitas vezes

O corpo se deixa levar

Entre tantas outras vezes

Segue mudo nesse deslumbrar

Vivendo uma vida contada

Sem nada para contar…

Reflexão

Aprendi a ser
Ciente de bem escolher
Não sei como nem quando
Deixou de fazer sentido
Olhar para um rosto de verdade
Sentir respeito pelo bem feito
Viver a essência e não a aparência.
Não sei…
Como nem quando trocaram os verbos
Desconheço a conjugação,
Por mais tempo que dedique a esta reflexão
Não sei como acompanhar os passos
Neste caminho estilhaçado em pedaços
Onde se atropela a identidade
E a vida se vive pela metade.

Onde mora a verdade?

Onde mora a verdade

Tantas vezes vestida de vaidade

De olhos vendados

Cercada de vertigens

Perdida na traição

De viver pela metade.




Onde mora a verdade

O caminho é feito em liberdade

Avesso à mentira

Pelo respeito que bate no peito

Com vontade de abarcar

Vidas onde possa habitar.


Onde mora a verdade?

Era para ser…

Era para ser…

Como um jardim em flor

A lua e o seu fulgor

Como as estrelas a brilhar

O vento forte a soprar.



Era para ser…

Um rosto vestido de beleza

Num andar meigo e de subtileza

Um lugar de aconchego

Onde os corpos respiram sossego.



Era para ser…

Vida na vida de alguém

Com vontade de ir longe e mais além

A tempo e com tempo de se dar

Ser casa onde o coração se deixe repousar.

Interrogações

Interrogo-me constantemente

Ao ponto de não existirem pontos

Nem linhas tecidas em afirmações

Apenas interrogações

Incertezas,

Tendo, porém, consciência

De ter presente tantas emoções

Que dão lustro à minha vivência

Na certeza de me quererem mostrar

Que não passam de contradições…

Partir ou Chegar

Não sei se é tempo de partir ou de chegar

Simplesmente acompanho o horizonte

Seguindo os dias

E hoje subo ao alto da montanha

Na tentativa de arrumar os pensamentos

Disfarçadamente o corpo torna-se leve

E a mente parece uma sombra pintada pelo sol

Crio a ilusão do silêncio ser a única porta

Por onde o corpo possa voltar.

Fragmentos

Interrompo os pensamentos

Sem saber formatar os sentimentos

Descrevo-me em palavras

Umas vezes certas

Outras tantas desarticuladas

Sou como o sorriso que amanhece

Tímido,

E no ventre do sol espairece

Guardo no dia silêncios

De segredos e conversas caladas

E enfeito-me de gestos

Que se desprendem do coração

Sem serem ensaiados

São olhares acesos

Fragmentos

De mim…