Teremos que ser iguais?

Era uma vez
entre tantas outras vezes
em que abro a cortina
para destapar o olhar
mal dormido,
colapsado pelo tempo
de madrugadas ensonadas
sendo a noite pelo dia arrancada.

É hora de entrar na caminhada
pedaço por pedaço,
em gestos que se repetem
para sermos seres iguais
com movimentos postiços
para não deixar cair a perfeição
no topo íngreme da ambição
por onde muitas vezes
o corpo se deixa levar
entre tantas outras vezes
segue mudo nesse deslumbrar
vivendo uma vida contada
sem nada para contar…

Reflexão

Aprendi a ser
ciente de bem escolher
não sei como nem quando
deixou de fazer sentido
olhar para um rosto de verdade
sentir respeito pelo bem feito
viver a essência e não a aparência.

Não sei…
como nem quando trocaram os verbos
desconheço a conjugação,
por mais tempo que dedique a esta reflexão
não sei como acompanhar os passos
neste caminho estilhaçado em pedaços
onde se atropela a identidade
e a vida se vive pela metade.

Onde mora a verdade?

Onde mora a verdade
tantas vezes vestida de vaidade
de olhos vendados
cercada de vertigens
perdida na traição
de viver pela metade.

Onde mora a verdade
o caminho é feito em liberdade
avesso à mentira
pelo respeito que bate no peito
com vontade de abarcar
vidas onde possa habitar.

Onde mora a verdade?

___Traço Contínuo___

Sou um pouco da estrada
que se alonga sem se perder
que cede caminho se assim o entender
de consciência calada
leve e sossegada,
sem pressa de chegar
ao fim do lugar.

Sou um pouco da estrada
onde um traço contínuo
conduz o tempo de vida
e o caminho se desfaz em nada…

Interrogações

Interrogo-me constantemente
ao ponto de não existirem pontos
nem linhas tecidas em afirmações
apenas interrogações
incertezas.

Tenho, porém, consciência
das emoções presentes
que dão sentido à minha vivência
na certeza de me quererem mostrar
que não passam de contradições…

Partir ou Chegar

Não sei se é tempo de partir ou de chegar
simplesmente acompanho o horizonte,
seguindo os dias.
Hoje subo ao alto da montanha
na tentativa de arrumar os pensamentos,
disfarçadamente o corpo torna-se leve
e a mente parece uma sombra pintada pelo sol.

Crio a ilusão do silêncio ser a única porta
por onde o corpo possa voltar.

Fragmentos

Interrompo os pensamentos
sem saber formatar os sentimentos,
descrevo-me em palavras
umas vezes certas
outras tantas desarticuladas.

Sou como o sorriso que amanhece
tímido,
e no ventre do sol espairece.

Guardo no dia silêncios
de segredos e conversas caladas
e enfeito-me de gestos
que se desprendem do coração
sem serem ensaiados.

São olhares acesos,
fragmentos
de mim…

Serei eu?

Confesso
que hoje perdi
o olhar em algum lugar
fechei o coração à emoção
deixei o medo tomar conta de mim.

Confesso
hoje o meu corpo estremece
o dia para mim não tem cor
nem os beijos sabor.

Confesso
hoje as minhas palavras não voam
nem as ondas do mar ecoam.

Confesso…
serei eu, assim?