Confidências…

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“Não sou mais do que vês em mim
Tracei um caminho que me levou
E me libertou num poema assim…”

 

Hoje sou o que nunca fui
Trago no olhar o que nunca vi
Encontrei palavras que nunca esqueci
Relembrei sonhos que ficaram por aí
Esquecidos, talvez perdidos
Entre pedaços de caminhos percorridos.
Ontem fui o que hoje sou
Rosto que o tempo transformou
Abraços que o vento levou
Silêncios que o coração libertou.
Sou o amanhã e para onde vou
Levo comigo a raiz que brotou
Sem medo do que para trás ficou
Importa o agora e com quem estou
Caso o amor que recebo com o que dou.

Como se fosse uma janela

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Abro a madrugada
Como se fosse uma janela
Que conspira com o olhar
Espanta o escuro e a sombra
Num enredo com o corpo
Faz os sentidos desabrochar.

Na luz ténue do nascer do dia
Cubro a pele com a minha existência
Alicerce que segura o tempo
Sem perder o saber do ser
Rasgo um sorriso de esperança
Alimento a vida que me faz viver.

Abro a janela
Como se abrisse a madrugada
Debruço-me no caminho
Que será a minha caminhada…

 

Entre incertezas…

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Sou feita de tantas incertezas
Com certeza nem sei quem sou
Guardo pedaços de existência
Para não perder a inocência
Da idade que o corpo
Carrega para onde vou.

Não consigo saciar a vontade
De pousar em todas as palavras
Tudo o que é estranho entranha
Preencho os dias de silêncios
Memorizo todos os olhares
Retrato-me em múltiplos lugares.

Percorro passos certos
Que me levam a destinos incertos
Encontro sentidos há muito perdidos
Remendo partes de mim
Na incerteza que me cobre o ser
Há uma luz que nunca se irá perder.

 

Traços…

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Da terra guardo os segredos
Promessas de um campo aberto
Sémen de trigo que germina
Entre o ventre das colinas
E a suave brisa do silêncio.
O olhar pousa e repousa
O corpo fatigado pela safra
Do amadurecer dos sonhos
E da colheita dos desejos
Semeados no regaço do coração
Tecidos no abrigo da imaginação.
Por entre os traços verdes do arvoredo
Cresce a raiz que me prende à vida.

Escuridão

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Na imensidão desta escuridão
Solta-se o choro
Cansado de solidão.
As lágrimas lavam-me o rosto
Escondido pelo pó
Envelhecido
Não pelas rugas
Mas de tanto se sentir só.
Carente de um sorriso
De uma mão a acariciar
A pele baça e triste
Sedenta de se cruzar
Com a fala de um olhar.

Fragmento de momentos

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Já vivi momentos que não senti
Já desejei viver o que nunca vivi
Já carreguei sentimentos
Que de tão pesados
Foram descarregados
Em lamentos.
Já senti a sociedade
Prender-me a liberdade
Pelo limite de igualdade
Que colide com a realidade.
Já amei um amor
Com todo o meu fulgor
Depositei nele a minha essência
Que não foi suficiente
Para cobrir a metade ausente.
Já conheci gente
Que ainda hoje reconheço
Que desconheço.
Não uso armas de cobardia
Não sou heroína em hipocrisia
Não sou um muro de lamentações
Das minhas lamentações.
Relato emoções
Eco de reflexões
Fragmento de momentos….

Quem somos?

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Tantas vezes olhamos
Sem ver
Tantas vezes falamos
Sem nada dizer
Tantas vezes tocamos
Sem sentir
Outras vezes escutamos
Sem nada ouvir
Será por conveniência
Ou por falta de essência?

Somos nacos da mesma carne
Seres semelhantes
No nascer e no morrer
Inconstantes
No modo de ser
Viajantes
Com vontade de conhecer
Aprendizes constantes
Da arte de viver.

Somos seres intolerantes
Que nos tornamos distantes
Do valor dos afetos
Somos errantes inquietos
Apenas desejamos ter
Para enaltecer
O que nos falta no ser
Será por conveniência
Ou por falta de essência?

Não somos todos iguais
Somos todos humanos
Uns quantos se tornam banais
Por serem tão artificiais
Vazios e ausentes
Acreditam que são diferentes
Despejam sentimentos
Desperdiçam momentos
Seres meramente superficiais.

Será gente?

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Há gente que vive da gente
Seres com muito pouco ser
Incapazes de traçar uma linha coerente
Julgam-se detentores do poder.

Convincentes da verdade que mentem
Olhar reduzido ao próprio umbigo
Veem nos outros algo que não sentem
Exibem-se como sendo o próprio inimigo.

Espantam os fantasmas lavando o rosto
Afogam na água que escorre pela identidade
Ressaltam os contornos vincados de desgosto
Hibernados na concha que esconde a personalidade.

Acorrentados ao delírio momentâneo do prazer
Saboreiam a cobardia de olhos vendados
Tal é o estilhaçar do espelho pelo falso parecer
Reduzidos ao espaço onde vivem camuflados.

Identidade

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Sem sentido nas palavras
Sem rumor de movimento
Dou comigo deslumbrada
No meio da encruzilhada
Por cada rima pronunciada.
Perdida no meu labirinto
Nas amarras que encontro em cada verso
Fascinada neste mundo faminto
Aos poemas que me prendem a este universo.
Com identidade suspeita
Por não pertencer a nenhuma seita
Rendo-me à arte de criar em liberdade
De dar asas a esta minha vontade
Que foge para além da realidade.
Algo voa intensamente no meu pensamento
Sinto cada palavra como um momento
Agarro no papel com afinco e alento
E transporto de dentro para fora de mim
A voz que habita na minha essência.
Mostro o espelhar da minha alma
A moldura da minha aparência
O silêncio dos poemas que acalma
E ilumina a minha existência.

Ser

ser

Na incerteza de estar certa serei breve
As palavras foram caindo ao de leve
O sonho foi-se perdendo de mim
A alma desprendeu-se do corpo sem fim.

O sentimento baloiça desorientado
Tal como o sentido desalinhado
Não aprendi a ser o que não sou
A fingir o que sinto e onde estou.

O pensamento refugia-se na essência
Na verdade que mora na minha consciência
Nada mais me importa que a identidade
Do ser que desperta em mim felicidade.