…Era uma Vez…

A vida veste-se de palavras

Doces ou por vezes amargas

Frases feitas

Que nos vendem por estar certas

E o corpo absorve letra a letra

Este livro aberto

Que ao cair na pele

Se vai despindo,

E as silabas são desfeitas

Em capítulos que guardamos no coração

Levados pela razão ou emoção

Avançamos página a página

Com o prazer de viver

As palavras que se despem

E se entregam à vida…

Esvaziar a saudade

Nestes dias curtos

Que vestem o outono

Todos os espaços parecem vazios

Ausentes

O olhar espelha silêncio

Melancolia,

Eu só quero encontrar um lugar

Quem sabe um rosto

Ou um poema

Onde esvaziar a saudade

E sentir de novo a luz

Das nossas mãos se voltarem a tocar.

Abri a porta…

Ao fechar a porta

Recolhi o olhar

Aprisionei as palavras

Senti a solidão entrar,

Consciente de ferir o coração

E de pôr os pensamentos a hibernar

Sacudo o tempo

Salto para a vida,

Dou liberdade aos dias para voar

Guardo o que é bom de guardar

E ao abrir a porta

Sinto o vento a soprar

Até a alma arejar…

Albergue de emoções

Terra despida

Em raízes envolvida

Sementes que brotam

Desejo fértil de vida

Refúgio,

Terra prometida

Dias que amadurecem

Sombras que florescem

Traços que marcam o rosto

Luz que permanece além do sol-posto,

Terra vivida

Albergue de emoções

Instantes constantes

Renovar de estações…

Dar sentido aos Sentidos

Gosto de te ver

De olhar no teu olhar sarado

Despreocupado,

Sentir as tuas mãos livres

O teu abraço apertado

Aconchegado,

Ouvir em silêncio as tuas palavras

O teu discurso letrado

Enfeitiçado,

Mergulhar no odor da tua pele

No veludo acastanhado

Perfumado,

Trocar os meus beijos pelos teus beijos

Esse sabor frutado

Apaixonado,

Gosto de dar sentido aos sentidos…

Silenciosamente

E de repente o silêncio

O céu despido de asas

O sossego da escuridão

As estrelas que parecem brasas

Ardentes na imensidão.



E neste silêncio

Brindo ao sabor do anoitecer

Com o rosto vestido de luar

Adormeço entre os sonhos

E a luz que me faz despertar.


Silenciosamente

O dia acaba de chegar…

…Ver com o olhar…

É com o olhar que se aprende a ler

A doçura do sorriso

A candura das palavras

É com o olhar que se aprende a ver

A luz que norteia o caminho

O silêncio que conduz o tempo

É com a vista posta no teu olhar

Que derramo os segredos

Que com o tempo fui colhendo.

Amor para a vida

Pudesse eu ser asa

Para te deixar voar

Pudesse eu ser casa

Para acolher o teu pousar

Pudesse eu ser uma estrela

Para o teu caminho iluminar

Soubesse eu ser a leveza

Para a dureza da vida apagar

Soubesse eu ser o sol

Para fazer o teu dia brilhar

Pudesse eu ser a pele

Para a tua pele agasalhar

Soubesse eu colher a felicidade

Para como presente te dar

Para que saibas

O meu amor por ti jamais vai acabar

É semente para uma vida toda durar.

A vida a florir

O dia amanheceu a florir

Abri as cortinas para o sol entrar

O silêncio da noite foi saindo devagar

Senti os poros da minha pele a brotar


O corpo acorda e reage ao dia

Como se fosse uma flor de um jardim

Talvez um malmequer, um lírio ou jasmim

Absorvo o perfume e guardo-o em mim


Sigo a raiz que faz os dias florescer

Mas nem sempre entendo o seu crescer

Por vezes o que é certo faz-me perder

E o acaso dá-me tempo para escolher


A cada passo

Há um dia a florir, o corpo a reagir

E a vida a fluir…