Será Verdade?

Será verdade
que temos a memória
talhada de pedaços,
a pele carregada
como uma silhueta de estilhaços?

E o corpo vagueia
num corredor de mentiras,
entre lapsos de tempo,
corrosão de cansaços,
lágrimas escondidas,
palavras perdidas,
horas fugidas
e promessas quebradas.

Será verdade?

Um novo olhar…

De mãos vazias,
mas estendidas ao mundo,
vagueia pelas ruas
um olhar,
um silêncio vagabundo
que se mostra clandestino,
perdido na penumbra,
como se andasse sem destino.

Temido pelo tempo,
entre um passado vivido
e um futuro talvez esquecido,
este olhar,
embora um pouco desajeitado,
não é alheio à miragem
de ver o céu estrelado
e de com ele seguir viagem.

Um olhar
que hoje é meu,
amanhã poderá ser o teu,
de mãos vazias,
mas abertas a cada acordar,
onde nasce sempre um novo olhar…

Abrir a porta ao dia !

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E das tantas vezes que abri a porta
nunca o dia me atraiçoou com a sua cor
hoje balbuciou a tristeza de uma noite morta
atingida por um pesadelo preso na dor.

Descortinou o tom acinzentado do céu
assim que o relógio bateu na madrugada
depressa estendeu a cor da manhã como um véu
deu ao dia a rotina por todos nós esperada.

As horas percorriam o mesmo caminho
as cores assentavam no mesmo lugar
o dia ficou soalheiro, mas suspirava sozinho
o quanto desejava poder a noite abraçar.

Vestem a cumplicidade de uma amizade
exposta entre o amanhecer e o anoitecer
entregam-se sem quebrar a liberdade
de dar aos anos, aos meses e aos dias, ser.

Nem sempre o dia é de alegria,
mas felicita-nos com a sua companhia
Todos os dias se abrem para o dia!

Entre a noite e o dia

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A noite roubou-me o dia
o sono perdeu-se no escuro
o meu corpo deambula e fantasia
mostra-se no seu estado mais puro.

O quarto cheira a sonhos acabados de entrar
o coração fecha-se e finge adormecer
as palavras recolhem e param de conversar
o amor penetra na noite até amanhecer.

Ergue-se a madrugada de rosto lavado
a janela abre-se para acolher o sorriso do dia
as insónias vincaram um retrato ensonado
mas o corpo desperta e veste-se de ousadia.

… A noite devolveu-me o dia…

A vida do dia …

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O dia abriu-se à vida,
vestiu-se de sol e de tempo
percorreu, sem pressa,
a esquina que cruza com a rotina,
o lugar onde os passos se exprimem
marcam a vontade de recomeçar
de acolher a vida deste novo despertar.

A vida estende-se ao dia,
de aparência doce e serena
inquilina de constante sabedoria
caminha sob um batimento constante,
carrega a leveza de viver cada instante
com as cores que definem o olhar
com os gestos que mexem cada acordar.

Ao sabor do vento…

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A cortina abre-se
convidando o vento a entrar
a espreguiçar-se no meu acordar
a inspirar a ingenuidade da alma
e a decifrar a nudez do corpo
que respira cada movimento
como se a pele fosse abrigo
de todas as sensações…

A cortina abre-se
rodopiando na janela entreaberta
o ar pousa em todos os sentidos
acentua-se a vontade de te ver chegar
de saborear o bater do vento
no aconchego dos nossos corações…

Somos olhares…

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Só quando me vejo nos teus olhos,
sinto a pacatez do tempo.
Imagino as horas rendilhadas,
o largar dos fios
que outrora as mantiveram apressadas.

Encontro agora no nosso olhar
o vagar com que tecemos o tempo,
o entrelaçar das nossas mãos
no retrato que une todas as pontas
costuradas entre os dias
em que os corpos vão envelhecendo,
sem deixar o tempo suspender
o abrigo que acolhe a arte de viver.

Somos olhares …

… Um presente …

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 A vida é um presente
oferecido neste instante.
Porquê abri-lo mais adiante?

O dia acordara cedo
com um toque de palidez
talvez um pouco cansado,
mas disposto a abrir o olhar
deixar o sol entrar,
sentir o orvalho a desaparecer
por entre as flores se esconder
e saborear a natureza a amanhecer.

A vida respira esta fragrância,
agarra os dias sem os deixar fugir
sacode a poeira que assenta nos ombros,
cria asas e entrega-se a viver.

O pisar do chão

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Descalça,
Sinto os meus próprios passos
Entranhando na terra
Percorrendo as raízes
Que se desprendem
E se agarraram à liberdade
De escolher o caminho
O pisar do chão
Que molda a orientação
Sem ter medo de seguir
De colher o que está para vir.
Descalça,
Neste rasgar de tempo
Que o corpo aprende a lavrar
Sem deixar que as feridas
O deixem abrandar…