A voz que trago no peito

O que cala a voz que trago no peito
o silêncio da chuva que cai,
o rio que corre depressa
fugindo do seu leito
ou a surdez de quem passa
de olhar insatisfeito?

Não há tempo para recuar
somos a multidão premiada para avançar
não importa onde a corrente possa desaguar
tecemos uma linha onde o destino é triunfar.

Sinto a voz do meu peito a afogar…

…O que me habita…

No espaço do meu corpo
habita a ausência e a presença
entre o querer e o não querer
e cresce um lugar chamado ser
que me diz do que sou feita
entre o que deixei por fazer.

Descreve a pele que me veste
sem julgar ou repreender
ilumina o caminho do meu caminhar
faz-me promessas sem se comprometer.

Habita-me um espaço que só eu sei entender…

Dias curtos

Senti a tua chegada
através dos dias curtos
e das folhas que caem na calçada
deixo-te entrar na minha morada
saboreio os teus aromas
aceito a melancolia que trazes vestida
sinto a minha pele renovada.

Não sei o que perdi
talvez os poemas que não escrevi
atados a um tempo que parou
mergulhada em silêncio
mas algo no outono me despertou…

A vida como presente

A janela abriu-se para a vida.

O dia entrou em todos os recantos, acolhendo os olhares da manhã e preenchendo o espaço com vontade de festejar. O silêncio foi interrompido pelo bater acelerado do coração ao receber o presente de mais um ano, para o somar alegremente aos anos que conto de vida.

Sabia que julho tinha um dia que era meu e com ele vou fazendo o caminho… sem pressa, aprendendo com o tempo que ir mais longe muitas vezes é simplesmente estar perto.

Ontem foi um dia pleno de gratidão, de amor e felicidade… Um colher de afetos ao celebrar o meu quadragésimo oitavo aniversário.

…A vida como presente…

O que temos?

O que nos separa da vida
não é o tempo que não temos
nem os dias apressados que vivemos
não são as pessoas que não vemos
são as palavras que não dizemos
são as emoções que escondemos
são os olhares que perdemos
são os vazios que não preenchemos
o que nos separa da vida
é o que temos e não percebemos…

Divagando

Poesia…

Que trago de dentro para fora
que se ramifica em todas as minhas divisões
pousa em todas as frestas
cobre muitos dos meus silêncios
respira no bater das minhas emoções.

Não sei se a levarei quando for embora
talvez também não seja preciso,
será porta que se fecha
ou será abrigo para um sorriso
no interior de muitos corações?

…Poesia

…Escrever um poema…

Se tivesse de escrever um poema
seria com certeza sobre o mar
porque navego em rotas desconhecidas
deixo que o vento me leve e me alimente a ilusão
descubro-me em palavras que achava perdidas
nem sempre em terra firme encontro imaginação.

O mar é um horizonte aberto
o coração embarca como viajante
tendo a liberdade como direção
os poetas seguem a maré
transportam as palavras com o olhar confiante
mergulham o amor em poemas de paixão.

Se tivesse de escrever um poema
seria com certeza num barco a navegar…

Dama

Já lhe passaram pelo rosto
muitas madrugadas,
muitas sílabas mal contadas
finge sem saber fingir,
facilmente lhe apanham o sentir
é dama,
rodopia sem posar
os holofotes não lhe alcançam o olhar
procura na luz caminho para andar
não é alimento para a fama,
mostra-se sem se mostrar
é comprometida com tudo o que ama.

É dama,
facilmente lhe apanham o sentir
porque vai deixando as palavras cair
no regaço de poemas,
sabendo que não são colo de plateias
são rimas que lhe percorrem as veias…

Metáfora

Queria tanto conversar
que pus as palavras a falar
pousaram no meu olhar
ofereceram metáforas à minha voz
e assim ficamos
partilhando ilusões
guardando segredos entre nós.

Senti-as com vagar
mostrando uma expressão singular
são palavras
silêncios sós
pensamentos que apesar de começados
nunca terão voz para serem acabados.

Às palavras que por vezes não são ditas
serão em poemas escritas
terão um caminho assim
para que nunca tenham fim…