…Escrever um poema…

Se tivesse de escrever um poema
seria com certeza sobre o mar
porque navego em rotas desconhecidas
deixo que o vento me leve e me alimente a ilusão
descubro-me em palavras que achava perdidas
nem sempre em terra firme encontro imaginação.

O mar é um horizonte aberto
o coração embarca como viajante
tendo a liberdade como direção
os poetas seguem a maré
transportam as palavras com o olhar confiante
mergulham o amor em poemas de paixão.

Se tivesse de escrever um poema
seria com certeza num barco a navegar…

Dama

Já lhe passaram pelo rosto
muitas madrugadas,
muitas sílabas mal contadas
finge sem saber fingir,
facilmente lhe apanham o sentir
é dama,
rodopia sem posar
os holofotes não lhe alcançam o olhar
procura na luz caminho para andar
não é alimento para a fama,
mostra-se sem se mostrar
é comprometida com tudo o que ama.

É dama,
facilmente lhe apanham o sentir
porque vai deixando as palavras cair
no regaço de poemas,
sabendo que não são colo de plateias
são rimas que lhe percorrem as veias…

Metáfora

Queria tanto conversar
que pus as palavras a falar
pousaram no meu olhar
ofereceram metáforas à minha voz
e assim ficamos
partilhando ilusões
guardando segredos entre nós.

Senti-as com vagar
mostrando uma expressão singular
são palavras
silêncios sós
pensamentos que apesar de começados
nunca terão voz para serem acabados.

Às palavras que por vezes não são ditas
serão em poemas escritas
terão um caminho assim
para que nunca tenham fim…

Teremos que ser iguais?

Era uma vez
entre tantas outras vezes
em que abro a cortina
para destapar o olhar
mal dormido,
colapsado pelo tempo
de madrugadas ensonadas
sendo a noite pelo dia arrancada.

É hora de entrar na caminhada
pedaço por pedaço,
em gestos que se repetem
para sermos seres iguais
com movimentos postiços
para não deixar cair a perfeição
no topo íngreme da ambição
por onde muitas vezes
o corpo se deixa levar
entre tantas outras vezes
segue mudo nesse deslumbrar
vivendo uma vida contada
sem nada para contar…

Reflexão

Aprendi a ser
ciente de bem escolher
não sei como nem quando
deixou de fazer sentido
olhar para um rosto de verdade
sentir respeito pelo bem feito
viver a essência e não a aparência.

Não sei…
como nem quando trocaram os verbos
desconheço a conjugação,
por mais tempo que dedique a esta reflexão
não sei como acompanhar os passos
neste caminho estilhaçado em pedaços
onde se atropela a identidade
e a vida se vive pela metade.

…Pelo escuro da noite…

Pelo escuro chegam as insónias
descobrem na noite
o sossego para a sua inquietação.

O espaço fica frio e sombrio
rodeado de solidão,
e o meu corpo torna-se abandonado
indefeso,
sem saber lidar com a situação.

Entre voltas e voltas
cubro-me de palavras
certa de que a manhã vai acordar
com o meu corpo a erguer-se devagar
mas provavelmente,
com o nascer de um poema
acabado de imaginar…

Um desfilar perfeito

Chega leve e descontraída
como sempre bem parecida
envolvida no seu jeito
com um desfilar perfeito,
traz na bagagem
o sorriso dos dias
o findar das horas sombrias,
a fragrância das palavras
que esvoaçam do coração
soltas, livres para acolher a nova estação,
com a ousadia de seguir viagem
aceitando a leveza da tua aragem.

…Colher vida…

A manhã acordou cedo
ainda um pouco resfriada
pelo frio trazido pela madrugada
as nuvens fogem do céu
completaram a sua jornada
é hora de o sol aparecer,
a terra precisa de florescer.

É tempo de largar a semente
lavrar o caminho
colher vida
no coração que bate
e chama pela vida da gente.

Onde mora a verdade?

Onde mora a verdade
tantas vezes vestida de vaidade
de olhos vendados
cercada de vertigens
perdida na traição
de viver pela metade.

Onde mora a verdade
o caminho é feito em liberdade
avesso à mentira
pelo respeito que bate no peito
com vontade de abarcar
vidas onde possa habitar.

Onde mora a verdade?