Teremos que ser iguais?

Era uma vez
entre tantas outras vezes
em que abro a cortina
para destapar o olhar
mal dormido,
colapsado pelo tempo
de madrugadas ensonadas
sendo a noite pelo dia arrancada.

É hora de entrar na caminhada
pedaço por pedaço,
em gestos que se repetem
para sermos seres iguais
com movimentos postiços
para não deixar cair a perfeição
no topo íngreme da ambição
por onde muitas vezes
o corpo se deixa levar
entre tantas outras vezes
segue mudo nesse deslumbrar
vivendo uma vida contada
sem nada para contar…

Reflexão

Aprendi a ser
ciente de bem escolher
não sei como nem quando
deixou de fazer sentido
olhar para um rosto de verdade
sentir respeito pelo bem feito
viver a essência e não a aparência.

Não sei…
como nem quando trocaram os verbos
desconheço a conjugação,
por mais tempo que dedique a esta reflexão
não sei como acompanhar os passos
neste caminho estilhaçado em pedaços
onde se atropela a identidade
e a vida se vive pela metade.

…Pelo escuro da noite…

Pelo escuro chegam as insónias
descobrem na noite
o sossego para a sua inquietação.

O espaço fica frio e sombrio
rodeado de solidão,
e o meu corpo torna-se abandonado
indefeso,
sem saber lidar com a situação.

Entre voltas e voltas
cubro-me de palavras
certa de que a manhã vai acordar
com o meu corpo a erguer-se devagar
mas provavelmente,
com o nascer de um poema
acabado de imaginar…

Um desfilar perfeito

Chega leve e descontraída
como sempre bem parecida
envolvida no seu jeito
com um desfilar perfeito,
traz na bagagem
o sorriso dos dias
o findar das horas sombrias,
a fragrância das palavras
que esvoaçam do coração
soltas, livres para acolher a nova estação,
com a ousadia de seguir viagem
aceitando a leveza da tua aragem.

…Colher vida…

A manhã acordou cedo
ainda um pouco resfriada
pelo frio trazido pela madrugada
as nuvens fogem do céu
completaram a sua jornada
é hora de o sol aparecer,
a terra precisa de florescer.

É tempo de largar a semente
lavrar o caminho
colher vida
no coração que bate
e chama pela vida da gente.

Onde mora a verdade?

Onde mora a verdade
tantas vezes vestida de vaidade
de olhos vendados
cercada de vertigens
perdida na traição
de viver pela metade.

Onde mora a verdade
o caminho é feito em liberdade
avesso à mentira
pelo respeito que bate no peito
com vontade de abarcar
vidas onde possa habitar.

Onde mora a verdade?

Era para ser…

Era para ser…
Como um jardim em flor
a lua e o seu fulgor
como as estrelas a brilhar
o vento forte a soprar.

Era para ser…
Um rosto vestido de beleza
num andar meigo e com subtileza
um lugar de aconchego
onde os corpos respiram sossego.

Era para ser…
Vida na vida de alguém
com vontade de ir longe e mais além
a tempo e com tempo de se dar
ser casa onde o coração se deixe repousar.

Inverno

É a chuva que escorre pelo inverno
dando aos dias uma solidão molhada,
pousa no rosto um ar frio e sombrio
enquanto o corpo procura uma vida agasalhada,
uma luz acesa e iluminada
onde os sonhos não deixem de crepitar
e o amor continue a habitar.

…Ainda que o inverno esteja para ficar…