Amanhecer em guerra

O dia amanheceu

Perdido no escuro

Por entre os estilhaços

Que a noite devolveu.


O dia amanheceu

Com a contagem sangrenta

Dos rostos fardados

Que o mundo perdeu.


O dia amanheceu

Com o ruído das balas

Trazidas pela cegueira

De alguém que enlouqueceu.


O dia amanheceu

Com medo de ser perseguido

Para combater numa guerra

Que não é sua e não a escolheu.


O dia morreu.

Por aqui

Encontro-me por aqui,

Enquanto a vida não foge,

No corpo que madruga

Para arrumar as palavras

Que a mente vai desarrumando.


Perco-me por aqui,

Enquanto a vida foge,

Tentando acordar o corpo

Para encaixar os passos

Que o trilho vai desorientando.


Por aqui,

No tempo que encontro no tempo

E na escassez embriagada do tempo

Por aqui.

Deixaste tanto do teu amor

…Deixaste tanto do teu amor


Já não pouso no teu regaço

já não tenho o teu colo

o teu abraço.

Já não vejo o teu olhar

o teu sorriso

o meu porto de abrigo.

Já não sinto as tuas mãos

o teu carinho,

o calor do teu ninho.

Deixaste tanto do teu amor

a tua doçura continua à porta

sempre que me vê chegar,

ainda colho no teu jardim

a flor que guardavas para mim,

a luz do teu ser

é vida que em nós vai permanecer.


Tenho em mim tanto de ti

… A tua menina

Onde pousa o olhar…

O olhar seguiu

Sem pensar se era início ou fim,

Sem sentir que fugiu,

Se estava perto ou longe de mim.

Viu as nuvens agarradas ao céu,

Os desenhos lá pendurados,

Livres,

Expostos à imaginação

De sobrevoar o denso manto que cobre a terra.

Seguiu,

Unido pelo olhar que viu.

Tudo era perfeito,

Até questionar

Se tudo aquilo realmente existiu.



Quantas vezes o olhar

Se encontra perdido,

Até pousar e ser entendido!

Quantas vezes…

Vamos buscar a primavera

Dá-me a tua mão

Guardei-te um lugar perto de mim.

Vamos buscar a primavera,

Trazê-la para dentro da poesia,

Aconchegá-la nas palavras que florescem

Plantá-la num canteiro de margaridas

E pedir ao sol que apareça,

Que nos traga um sorriso,

Uma luz que nos fortaleça.


Vamos buscar a primavera,

Embalados por entre as pétalas

Que rodopiam no nosso olhar.

E, quando ela finalmente quiser chegar,

Perto de mim haverá sempre

Uma réstia de saudade

A desabrochar…

…Entre Ecos…

A chuva toca nas vidraças das janelas,

A música ecoa dentro de casa.

Embebo-me na melodia

E viajo sem bagagem,

Entre os movimentos que o corpo solta

E o acaso,

Sem qualquer compromisso,

Alheio à idade,

Afastado da rotina.

Livre,

Simplesmente a ouvir a voz,

A voz que transparece verdade,

Feminina.

As palavras vestidas com vaidade

Despertam-me.

Enquanto a chuva bate lá fora,

Danço,

A poesia que ouço,

A poesia que escrevo…

Sou mulher

Hoje e outro dia qualquer.