O dia abre-se…

annie-spratt-583430-unsplash

O dia abre-se
Silencioso,
Enquanto o meu corpo pestaneja
Ansioso,
Pela chegada de luz
Que traduz o acordar.
Rendo-me à leveza
Ao sossego da natureza
Que desperta à hora certa
E entra na janela do meu peito
Pelo quarto ainda meio desfeito
Convencendo este meu jeito
A desabrochar o olhar
Para acompanhar o tempo que escorre
Límpido e sereno
Em cada dia que nasce
E se veste para se renovar.

Antes que …

james-cousins-385610-unsplash

Guardo o silêncio da solidão
Antes que o barulho se alastre
E se aloje no coração

Adormeço a tristeza
Antes que o manto desperte
E acorde a minha leveza

Recolho as palavras perdidas
Antes que se sintam órfãs
E se isolem deprimidas

Apago a sombra da minha voz
Antes que fuja a poesia
E os sonhos acabem sós

Limpo o corpo do cansaço
Antes que se estenda pela alma
E se aproprie do meu espaço

Costuro as minhas memórias
Antes que o tempo as perca
E não as conte como histórias

Revelo o retrato dos dias
Antes que as cores desbotem
E a rotina me roube as alegrias

Antes que a brisa me leve
Verto a linguagem que traduz a essência
O refúgio da minha existência.

 

Envelhecer

mehdi-thomas-boutdarine-425503-unsplash

As folhas vão caindo
Quem sabe desistindo
Daquilo que as prende à natureza
Também os anos vão tombando
E a beleza derrubando
Porém,
A vida ensina-nos
A acrescentar amor
À idade que vamos somando
E força para continuar a crescer
Na arte de envelhecer.

… Enquanto as folhas vão caindo…

Que posso eu ser?

jordan-sanchez-44890-unsplash

Estranho
Esta estranheza
Que carrego sobre os ombros
Doridos,
Deixam tombar os desejos
Jã não sustentam a brisa
Que abre a beleza do dia.
De nada me servem as palavras
Que outrora me moviam
Comigo permaneciam
E sempre me comoviam.
Quisera eu ser poeta
Construir um mundo
Onde tudo cabia.
Certa
Desta certeza
Dediquei-me à poesia,
Agora,
Presente neste mundo
Ausente de palavras
Que posso eu ser?

Hoje é o meu dia!

aaron-burden-255427-unsplash

Sou como uma janela aberta
Que acolhe os olhares
Numa manhã que desperta
Se abre e se mostra
Sem pressa de chegar
À quietude dos lugares
Por onde quer passar.

Sou um pouco desse sorriso
Dessa luz que atravessa o friso
Ainda que um pouco fechada
Já o dia ilumina a casa
E os sonhos rompem pela fachada
Com vontade de esvoaçar
E da janela se libertar.

Sou as palavras que observo
Entre outras que conservo
Assentam no parapeito
Na timidez deste meu jeito
Que hoje abre a janela
Vos convida a entrar
Para o meu dia festejar.

Parabéns para mim !… 29 Julho 2018

 

Somos o caminho!

bridge-589171_960_720

Neste deserto povoado
Vazio,
Ecoa um silêncio agitado
Encoberto
Por um respirar sobressaltado
E um olhar desbotado
Que se estende na multidão
Carregado de solidão.
Ajustam-se os corpos
Cansados,
Sugados pelas horas
E pelos dias alimentados
Onde a memória se arrasta
Para não perder o caminho
Sendo a vontade de envelhecer
Destino constante de viver.
Somos a pele que nos abraça
Num ritmo que por vezes fracassa
Sem quebrar o rumo
Somos os sonhos que sonhamos
Qualquer a idade que tenhamos!

O que vês?

lens-3186721_960_720

Olha para mim
O que vês?

Um pedaço de céu
Num dia encoberto
Outro de sorriso aberto
Que nasce na claridade
Certa de querer voar alto
Desprender-me do véu
Amadurecer o pensamento
Tecer um sopro de felicidade
E espalha-lo com o vento.

Olha para mim
O que vês?

Um braço de mar
Num navegar destemido
Para a bom porto chegar
Mergulhar na profundidade
Na transparência da verdade
Libertar o olhar no horizonte
Deixa-lo ir nas marés
Na força das águas
Que moldam o sentido.

Olha para mim
O que vês?

Um pouco da terra
Que a terra me oferece
Raiz presa à vida
Dia a dia que amadurece
Semente que baila no ar
Palavras que guardo
Colhidas entre cada soletrar
Sou asa que poiso
Onde houver amor para amar.

Olha para mim…

Pedaços de mim…

kelly-sikkema-273133-unsplash

Pedaços de mim
Caídos em palavras
Por vezes desencontradas
Onde mostro o meu rosto
Com a tinta que escrevo
Embriago o meu corpo
No trago da poesia
Que com o olhar bebo.
Leio-me em cada pedaço
Em cada folha que guardo
Entre outras que desfaço
Em pedaços…

Como sou…

person-1357485_960_720

Por vezes tenho essa vontade
De suspender o tempo
E viver como que distante
Riscar o vai e vem
O engolir constante
Das coisas formatadas
Vividas em vidas aprisionadas
Com as horas ritmadas.

Por vezes tenho essa vontade
De não ser hoje nem amanhã
Calar a razão
Sem a condição de ter que ser
Não me apetece obedecer
À certeza dos certos
Caminho a par com a incerteza
Certa de encontrar a minha leveza.

Por vezes tenho essa vontade
De ir longe ficando por perto
Vestir o rosto de sorriso aberto
Não deixar os dias embrulhados
Ainda que tristes ou amuados
Transporto-os na minha ilusão
E com eles vou
Tal e qual como sou….