
Quando o olhar encontra a luz
A alma cicatriza,
O coração desprende-se do abandono
Alugado pelo corpo,
As palavras voltam a respirar
E, no avesso do tempo,
O olhar ganha vida noutro lugar.

Da minha janela vi um vento que desconhecia
Não sei se chegava ou partia,
Voava alto,
Arranhava o céu
Rodopiava certo dos movimentos que fazia,
Mostrava leveza e sabedoria,
Arrastava uma aragem bem arrumada.
A minha janela ganhou outra dimensão
A casa ficou mais iluminada,
Senti que o meu olhar já não me pertencia
E o corpo caminhava em outra direção
Despindo a preocupação
Empurrando o pensamento
Para viajar nas asas deste vento.

Neste lugar habitado
Num tempo constante
Jamais adiado,
Ouço a voz da terra
Firme,
Como quem comanda a vida
E rasga o caminho
Passada a passada,
Murmurando silêncios
Num rumo apressado
Sem nunca deixar o corpo tombar
Pelas horas de cansaço
Neste tempo inconstante
Por vezes desabitado
Que parece estar sempre atrasado.
Ouço a voz da terra
Presente na raiz da vida…

Não sei se são viagens
Estes percursos que faço
Ou se são paragens
Momentos que desfaço
Ao tricotar pensamentos,
Criando, por vezes, um emaranhado de fios
Que se fixam na memória
Numa teia que bloqueia
Não só a passagem da luz
Como afastam o silêncio
Esse ponto que nos conduz
Vivos pela vida.
Não sei se são viagens que faço
Por todos os momentos que passo,
Mas neste costurar de pensamentos
Há sempre fios que se soltam
Talvez sejam atalhos
A unir a razão e a emoção
Ou simplesmente pontos de abrigo
Para albergar o coração.

Movido pela liberdade
O amanhecer rodopiou
Depressa o sol despertou
E mapeou todos os sentidos
Como se fosse um guardião do dia,
Iluminou todas as sombras
E deu voz aos olhares que se abrem
Às conversas dos pássaros
À dança das flores
Ao acenar das palavras
Ao desfolhar de pensamentos
Ao voar e pousar,
Às escolhas de cada caminhar
No dia a dia de cada acordar…
O sorriso amanheceu
Depois de se espreguiçar
Abriu a janela para o sol entrar
Sacudiu o corpo
E de braços abertos agradeceu
O silêncio que o dia lhe trouxe
E as horas que o tempo tem para lhe dar,
De olhos postos em mim
Vestiu-me o rosto
E ensinou-me a apreciar
A simplicidade de ver o dia a começar
Oferecendo um sorriso
Aos sorrisos que irei ou não encontrar…