
O dia nasceu
convidou-me a entrar
aconchegou-me no seu ventre
e deu-me o sol como presente,
partilhou o fervilhar das horas
e sem mais demoras
sacudiu-me o corpo
e fez brotar da alma
o encanto de viver.

Saboreio o brilho do teu olhar
a rodopiar no meu sorriso
a magia que se estende no meu rosto
coberto de ingenuidade
ao entregar-se de improviso.
Enquanto isso, o meu corpo vagueia
entre o retrato de menina e mulher
e tropeça na suavidade das palavras
ditas pelo cruzar do nosso andar.
Gosto de te ver quando me vês
e de sentir a nudez do teu olhar
a penetrar na minha timidez…

A vida veste-se de palavras
doces ou por vezes amargas.
Frases feitas
que nos vendem por estarem certas
e o corpo absorve letra a letra,
este livro aberto
que ao cair na pele
se vai despindo
e as sílabas são desfeitas
em capítulos que guardamos no coração.
Levados pela razão ou emoção
avançamos página a página
com o prazer de viver
as palavras que se despem
e se entregam à vida…

Ao fechar a porta
recolhi o olhar,
aprisionei as palavras,
senti a solidão entrar.
Consciente de ferir o coração
e de pôr os pensamentos a hibernar,
sacudo o tempo
e salto para a vida.
Dou liberdade aos dias para voar,
guardo o que é bom de guardar
e, ao abrir a porta,
sinto o vento a soprar
até a alma arejar…

Nem sempre me acompanho
por vezes o caminho excede o tamanho,
sinto que o tempo me leva e não me traz,
alimento os sonhos sem saber se sou capaz.
Sentido é o olhar que abre a minha alvorada
silêncio é companheiro na minha jornada,
não temo não ter a certeza de nada,
mas quero ser eu e não viver disfarçada.
E se hoje me sinto desencontrada,
não tarda virá a madrugada.
Amanhã estarei de cara lavada…

O dia amanheceu a florir,
abri as cortinas para o sol entrar
o silêncio da noite foi saindo devagar,
senti os poros da minha pele a brotar.
O corpo acorda e reage ao dia
como se fosse uma flor de um jardim,
talvez um malmequer, um lírio ou jasmim,
absorvo o perfume e guardo-o em mim.
Sigo a raiz que faz os dias florescer,
mas nem sempre entendo o seu crescer,
por vezes, o que é certo faz-me perder
e o acaso dá-me tempo para escolher.
A cada passo,
há um dia a florir, o corpo a reagir
e a vida a fluir…