Retrato do dia

Hoje o sol veio espreitar à janela

Senti a luz a entrar no meu peito

A pele tece um aconchego

Um respirar iluminado e perfeito

O corpo deixa de hibernar

E o coração parece sossegar,

Entro em movimentos alinhados

E guardo este alimento

Como se fosse um beijo

A saciar-me o olhar.

Certo ou Incerto

O que cala a voz que trago no peito

O silêncio da chuva que cai

O rio que corre depressa

Fugindo do seu leito

Ou a surdez de quem passa

De olhar insatisfeito?


Não há tempo para recuar

Somos a multidão premiada para avançar

Não importa onde a corrente possa desaguar

Tecemos uma linha onde o destino é triunfar.


Sinto a voz do meu peito a afogar…

…O que me habita…

No espaço do meu corpo

Habita a ausência e a presença

Entre o querer e o não querer

E cresce um lugar chamado ser

Que me diz do que sou feita

Entre o que deixei por fazer.


Descreve a pele que me veste

Sem julgar ou repreender

Ilumina o caminho do meu caminhar

Faz-me promessas sem se comprometer.


Habita-me um espaço que só eu o sei entender…

O que temos?

O que nos separa da vida

Não é o tempo que não temos

Nem os dias apressados que vivemos

Não são as pessoas que não vemos

São as palavras que não dizemos

São as emoções que escondemos

São os olhares que perdemos

São os vazios que não preenchemos

O que nos separa da vida

É o que temos e não percebemos…

Dama

Já lhe passaram pelo rosto

Muitas madrugadas

Muitas sílabas mal contadas

Finge sem saber fingir

Facilmente lhe apanham o sentir

É dama,

Rodopia sem posar

Os holofotes não lhe alcançam o olhar

Procura na luz caminho para andar

Não é alimento para a fama,

Mostra-se sem se mostrar

É comprometida com tudo o que ama

É dama,

Facilmente lhe apanham o sentir

Porque vai deixando as palavras cair

No regaço de poemas

Sabendo que não são colo de plateias

São rimas que lhe percorrem as veias…

Teremos que ser iguais?

Era uma vez

Entre tantas outras vezes

Em que abro a cortina

Para destapar o olhar

Mal dormido,

Colapsado pelo tempo

De madrugadas ensonadas

Sendo a noite pelo dia arrancada

É hora de entrar na caminhada

Pedaço por pedaço,

Em gestos que se repetem

Para sermos seres iguais

Com movimentos postiços

Para não deixar cair a perfeição

O topo íngreme da ambição

Por onde muitas vezes

O corpo se deixa levar

Entre tantas outras vezes

Segue mudo nesse deslumbrar

Vivendo uma vida contada

Sem nada para contar…

…Colher vida…

A manhã acordou cedo

Ainda um pouco resfriada

Pelo frio trazido pela madrugada

As nuvens fogem do céu

Completaram a sua jornada

É hora do sol aparecer

A terra precisa de florescer.




É tempo de largar a semente

Lavrar o caminho

Colher vida

No coração que bate

E chama pela vida da gente.

Onde mora a verdade?

Onde mora a verdade

Tantas vezes vestida de vaidade

De olhos vendados

Cercada de vertigens

Perdida na traição

De viver pela metade.




Onde mora a verdade

O caminho é feito em liberdade

Avesso à mentira

Pelo respeito que bate no peito

Com vontade de abarcar

Vidas onde possa habitar.


Onde mora a verdade?

Era para ser…

Era para ser…

Como um jardim em flor

A lua e o seu fulgor

Como as estrelas a brilhar

O vento forte a soprar.



Era para ser…

Um rosto vestido de beleza

Num andar meigo e de subtileza

Um lugar de aconchego

Onde os corpos respiram sossego.



Era para ser…

Vida na vida de alguém

Com vontade de ir longe e mais além

A tempo e com tempo de se dar

Ser casa onde o coração se deixe repousar.