Sou casa

Por um qualquer lugar habitado
Estou eu,
Sem pertencer aqui
Nem a nenhum lado.

Pesa-me o caos que comigo trago
Pesa-me um certo cansaço
Pesam-me as palavras dos certos
A desfilarem sobre as minhas dúvidas.

Eu, que aqui estou,
O lugar onde me encontro
Continua habitável
Por mim,
E pela companhia da minha solidão.

Abrigo

Trago-te para perto de mim,
Para ter o corpo agasalhado
Entre o céu abastado de nuvens
E a chuva que cai sem parar
Mergulhando num deserto
Sombrio,
Pousado dentro de mim.

A vida corre sem tempo
A pele esfria por entre as palavras
Nada pode abrandar a vontade de caminhar
O amor não pode ser adiado
E os dias cansados
Nascem de novo amanhã
E depois… renovados.

Dias de Inverno

Sinto uma sombra,
como um ranger surdo,
sob o teto do meu corpo.

Um frio intermitente
pousa dentro das minhas veias,
e as mãos batalham
já um pouco engelhadas,

enquanto o olhar se mantém quente
agachado por entre a memória,
sim, a memória
que aconchegava os nossos dias,
não de tristeza,
mas de inverno…

Queria tanto conhecer-me

Queria tanto conhecer-me
como quem conhece um rio,
talvez o mar
ou um destino.

Sei que gosto de flores
e de sentir que a primavera
dura todas as estações
dentro de mim.

Queria tanto conhecer-me
com a mesma certeza
que acolho o amor
num abraço quente
e me entrego
à doçura de um sorriso.

Queria tanto conhecer-me
como quem escreve um poema
ou entrega o corpo
a uma dança não ensaiada.

Queria tanto conhecer-me
como alguém que sabe tudo
sinto que ainda não sei nada…

Luz que escurece os dias

Desconheço a sintaxe
do corpo que respira
por entre as folhas despidas
deste outono.

Contorno o céu
com o mesmo olhar
que percorre os recantos
da minha alma.
A terra acompanha o saltitar
das chuvas que caem
e lavam a poeira assente no pensamento.

Cai nas minhas mãos
um pouco da luz
que escurece os dias deste outono.
Pego no meu corpo
e entrego-o ao recomeço…