Poeta

romanticism-2041418_960_720… Sente as palavras como pétalas aveludadas
Embebe-as em ousadia,
Entrega-se à arte
De as acomodar em poesia.

 

É quando fecho os olhos
Que sinto as palavras
Escritas no teu olhar.
Poeta,
Que despertas o meu silêncio
Derramas em mim
A fragrância da tua rima
E ao meu corpo vens buscar
A substância da tua poesia.
Encanta-me
Esse teu encantado mundo
Que por vezes desconheço
Mas é tão doce
Tão vivo,
Apenas o quero habitar.

Num banco de jardim

man-1577160_960_720

Sentado no banco de jardim
De olhar triste e sombrio
Semblante magoado
Em quietude ignorado
Pela vastidão dos rostos
Que seguem na multidão.

Embebido em silêncio
Por um corpo repousado
Cansado do cansaço
Entre o vazio acumulado
De andar de banco em banco
Sozinho e arrastado.

Aprendeu a moldar os gestos
Para não ferir quem o possa ver
Gasta as horas que cobrem os dias
No aconchego da memória
Refúgio onde correm as lágrimas
E o levam à nascente da sua história.

Prende-se à corrente dos outros
Acrescenta-se com tudo o que vê
Alimenta-se com o viver da gente
Dá um jeito às dores que sente
Deixa-se ir com o pensamento
Até chegar o seu momento.

 

Vou com o olhar…

woman-2607772_960_720

Não finto o olhar
Vou para onde ele me levar
Tamanho é o horizonte
Que já não me cabe no peito
Transbordam os sonhos
É nas nuvens que me deleito.

A vida move-se
Entre o escorrer do tempo
Dos dias a amadurecer
E das noites acordadas
Acorrentadas à insónia
Ao desejo de serem amadas.

Tomara eu ter asas
Para alimentar as madrugadas
Cobrir de beijos as orvalhadas
Travar a distância dos corpos
Ser sol e por vezes lua
Num sopro de vento ser tua.

Berço de aconchego

tree-stump-2267010_960_720

Sinto a dor entrar-me na pele
Ao caminhar descalça entre o pó
E a saudade do verde do teu olhar.
Olho as árvores desfolhadas
Tão visível a magreza,
A tristeza,
De terem sido abandonadas.

A terra está carente de semente
De grão
De um sopro de gente
Que lhe estenda a mão
Pedra a pedra
Lhe devolva a calçada
Os sonhos de cada estação.

Meu berço de aconchego
Deixa-me sacudir-te as feridas
Costurar-te as asas
Para que possas de novo voar
Tão longe quanto os pássaros
No rasgar dos dias
Que alegremente vivias.

Entrego-me…

jade-304361… Rasgo o céu aberto
Desenho nele um lugar,
Onde as nossas mãos
Se poderão tocar…

 

Entrego-me como sou
Aos sentidos que brotam
E fintam a aparência
Onde floresce a raiz da essência
A fertilidade da alma
Que me conduz
Aos múltiplos lugares
Que habitam dentro de mim.

Sinto-me presa
Sem me prender a nada
São tantos os caminhos
Que não me recordo
Se já escolhi algum
Ou se, entretanto, me perdi
Sem habitar nenhum.

Ainda tenho em mim as asas
Para o voo que traçamos juntos
O meu olhar ainda caminha
Para se cruzar com o teu.
Partiste sem mesmo chegar
Talvez o amor seja assim,
Tenha que ser livre e voar
Para depois se voltar a encontrar.

Pelas ruas da cidade…

portugal-2423629_960_720

Pelas ruas desta cidade
Em passo incerto
Ajusto o meu olhar
À nudez
Dos olhares que se cruzam
Sem ninguém se ver
Tamanha é a fluidez
Dos passos
Que os levam a correr.

Pelas ruas desta cidade
Ecoa o silêncio
De palavras inacabadas
Conversas apressadas
Rostos mudos
Com sorrisos sisudos
Em estado de viuvez
Estando o dia a nascer
Já se sente a falecer.

As ruas desta cidade
São tecidas de multidão
Empurradas pela solidão
Em estilhaços de ruído
Sem conteúdo,
Levadas ao acaso
Pela escassez do tempo
Que se agarra à liberdade
Das ruas desta cidade.

Com saudade

note-2527454_960_720

Agarrei numa folha de papel
E escrevi a saudade
Que transpira da minha pele
O cheiro que não se evapora
Que me cobre a alma
E me veste o pensamento
Sob o corpo nu e sedento
Que permanece em silêncio
Desde a tua partida até agora.
Escrevo a saudade
Com palavras magoadas
Deixadas ao acaso
Na minha folha de papel
Abandonadas
Com saudade.

Espero por ti

heart-2396408_960_720

…Lembro-me de tudo em ti
Nem a tua ausência
Eu esqueci…

Vou despindo os sonhos
E riscando as palavras
No rasgar dos dias
Para enganar a saudade
E a ausência dos gestos
Que contigo trazias
E comigo repartias.

Tento fintar a monotonia
Travar a inquietude da espera
Cortar a distância em pedaços
Dar descanso ao corpo cansado
De tanto tempo estar sentado
Num canto escuro e desabitado
Talhado e tecido para ser amado.

Enquanto aguardo a tua chegada
Desnudo o desejo da minha pele
Sinto-te pulsar dentro de mim
Como uma chama a fervilhar
Desconheço o princípio e o fim
Acordaste todos os meus sentidos
Algures adormecidos, quase perdidos.