No tecido das palavras

Neste tecido onde sempre escrevo
onde há folhas em branco,
outras que rabisco e arranco
porque não fazem sentido,
porque não dizem ao que vivo.

São traços de vozes
sussurradas ao ouvido,
momentos sem tempo,
conversas trazidas pelo vento.

São folhas…
Folhas que se agitam como nas árvores,
folhas onde deixo tombar palavras,
mudas,
talvez para serem lidas,
outras tantas para serem ouvidas.

No tecido onde escrevo,
costuro os verbos entre as minhas mãos
e, em silêncio, vou buscar
os versos que dormem entre as rimas
de um poema,
de um corpo,
onde desperta o toque das palavras,
talvez por serem aveludadas,
talvez por serem acarinhadas.

Quem sabe…
simplesmente amadas!

Um poema para o dia

Decidi escrever para pincelar o dia
está um pouco tímido, sem alegria.
As palavras já aguardam o seu lugar,
não querem perder este adjetivar.

Vestem-se de cor, confiantes ao seu jeito
trazem versos e rimas, trajam a preceito.
O dia continua agasalhado de solidão,
as palavras querem ser poema no seu coração.

Um poema nasceu
e o dia agradeceu
a luz que este lhe deu…

Divagando

Poesia…

Que trago de dentro para fora
que se ramifica em todas as minhas divisões
pousa em todas as frestas
cobre muitos dos meus silêncios
respira no bater das minhas emoções.

Não sei se a levarei quando for embora
talvez também não seja preciso,
será porta que se fecha
ou será abrigo para um sorriso
no interior de muitos corações?

…Poesia

Metáfora

Queria tanto conversar
que pus as palavras a falar
pousaram no meu olhar
ofereceram metáforas à minha voz
e assim ficamos
partilhando ilusões
guardando segredos entre nós.

Senti-as com vagar
mostrando uma expressão singular
são palavras
silêncios sós
pensamentos que apesar de começados
nunca terão voz para serem acabados.

Às palavras que por vezes não são ditas
serão em poemas escritas
terão um caminho assim
para que nunca tenham fim…

Desfolhar o mundo

Estendo as minhas mãos
pudesse eu desfolhar o mundo
cruzar o tempo neste caminho profundo
olhar o mar no horizonte sem fundo.

Embalo os meus sonhos
sem me deixar cair no adormecer
a vida ensina-me a ganhar e a perder
soubesse eu sempre acatar este entender.

Entrego palavras à poesia
como se fossem flores a brotar num jardim
o encanto dos poetas é terra que não tem fim
soubesse eu colher o poema certo para mim.

Amanhecer com poesia

Dou a mão ao amanhecer
abro a porta para o sol entrar
arrumo o corpo para bem parecer
sigo caminho com a felicidade no olhar.

Levo comigo os poemas acabados de acordar
ajeito as palavras para não as perder
o dia cresce sereno com vontade de se dar
e a poesia solta-se para quem a quiser ler.

Somos Palavras

Dizem que as palavras não têm tempo,
mas estão em constante movimento,
plenas de intensidade.
Encurtam a distância e medem a verdade,
escutam as conversas,
palavras entre palavras.

Traçam um caminho de cumplicidade,
deixando um rasto na memória,
conjugam-se entre o sonho e a realidade.

Hoje somos palavras,
ditas ou escritas.
Mais adiante somos
palavras recordadas ou apagadas…

…O que trago em mim…

Se hoje escrevesse um poema,
escolheria palavras leves,
transparentes e coloridas,
como a alma do autor.

Um poeta madrugador,
vestido de vontade,
conjugando o olhar e o sentir,
expondo-se entre rimas e versos,
com o tempo que deixa fluir…

Nem sempre sei o que trago em mim.

Se hoje escrevesse um poema,
começaria certamente assim…

…Era um poema…

Chegou como se viesse do Norte,
dentro da minha imaginação.
Vinha bem apresentado e de caráter forte,
nada fazia prever
que as palavras que o faziam mover
eram aquelas que eu gostava de ler.

Senti um trago de paixão,
um silêncio que mostrava o bater do coração.

Segui-lhe os passos,
com os meus sentidos um pouco perdidos,
pousados sob as rimas e os versos que entoava.

Vi o amanhecer dar lugar ao entardecer.
Era um viajante com tempo no rosto,
sem pressa de recolher.

Era um poema
como eu gostava de ser!