Onde pousa o olhar…

O olhar seguiu
sem pensar se era início ou fim,
sem sentir que fugiu,
se estava perto ou longe de mim.

Viu as nuvens agarradas ao céu,
os desenhos lá pendurados,
livres,
expostos à imaginação
de sobrevoar o denso manto que cobre a terra.

Seguiu,
unido pelo olhar que viu.
Tudo era perfeito,
até questionar
se tudo aquilo realmente existiu.

Quantas vezes o olhar
se encontra perdido,
até pousar e ser entendido!

Quantas vezes…

…Entre Ecos…

A chuva toca nas vidraças das janelas,
a música ecoa dentro de casa.
Embebo-me na melodia
e viajo sem bagagem,
entre os movimentos que o corpo solta
e o acaso,
sem qualquer compromisso,
alheio à idade,
afastado da rotina.

Livre,
simplesmente a ouvir a voz,
a voz que transparece verdade,
feminina.

As palavras vestidas com vaidade
despertam-me.
Enquanto a chuva bate lá fora,
danço,
a poesia que ouço,
a poesia que escrevo…

Sou mulher
hoje ou outro dia qualquer.

Queria apenas ser vento…

Da minha janela vi um vento que desconhecia
não sei se chegava ou partia,
voava alto,
arranhava o céu
rodopiava certo dos movimentos que fazia,
mostrava leveza e sabedoria,
arrastava uma aragem bem arrumada.

A minha janela ganhou outra dimensão,
a casa ficou mais iluminada,
senti que o meu olhar já não me pertencia
e o corpo caminhava em outra direção,
despindo a preocupação,
empurrando o pensamento
para viajar nas asas deste vento.

Sempre que me ouço falar

Sempre que me ouvires falar
as minhas mãos estarão abertas
estendidas às palavras,
porque nem sempre sei dizer
o que está dentro de mim
e muitas vezes sinto o olhar a calar,
o fervilhar das emoções,
a nudez que me veste a pele
letra a letra,
a embriaguez dos sentidos
acentua-se nas sílabas
e prende o meu desabrochar,
sempre que me ouço falar…

Este meu jeito de Ser

Persegue-me este meu jeito
que se esconde e se mostra
sorri sem preconceito
respeitando este meu modo de ser
imperfeito, mais que perfeito,
que segue sempre comigo
inteiro,
desde o amanhecer até ao entardecer.

E, no espaço que sobra em mim,
escuto e escrevo silêncios
que me saem do peito
e assim toco na vida,
inspiro a felicidade para dentro de mim
vestida com este meu jeito…

Comemorando-se hoje o dia Internacional da Mulher, senti vontade de voltar a partilhar este poema e aproveitar para desejar a todas as mulheres um dia feliz.

A voz que trago no peito

O que cala a voz que trago no peito
o silêncio da chuva que cai,
o rio que corre depressa
fugindo do seu leito
ou a surdez de quem passa
de olhar insatisfeito?

Não há tempo para recuar
somos a multidão premiada para avançar
não importa onde a corrente possa desaguar
tecemos uma linha onde o destino é triunfar.

Sinto a voz do meu peito a afogar…

…O que me habita…

No espaço do meu corpo
habita a ausência e a presença
entre o querer e o não querer
e cresce um lugar chamado ser
que me diz do que sou feita
entre o que deixei por fazer.

Descreve a pele que me veste
sem julgar ou repreender
ilumina o caminho do meu caminhar
faz-me promessas sem se comprometer.

Habita-me um espaço que só eu sei entender…

Dama

Já lhe passaram pelo rosto
muitas madrugadas,
muitas sílabas mal contadas
finge sem saber fingir,
facilmente lhe apanham o sentir
é dama,
rodopia sem posar
os holofotes não lhe alcançam o olhar
procura na luz caminho para andar
não é alimento para a fama,
mostra-se sem se mostrar
é comprometida com tudo o que ama.

É dama,
facilmente lhe apanham o sentir
porque vai deixando as palavras cair
no regaço de poemas,
sabendo que não são colo de plateias
são rimas que lhe percorrem as veias…