Queria que soubesses…

Queria que soubesses
que o pouso das minhas palavras
é um aconchego de sentimentos
um esvoaçar de momentos
um costurar de tempo
voos de imaginação
caminhos de liberdade
um espreguiçar de vontade
um alimentar de sonhos
reencontro de lembranças.

É esse quebrar de céu
que me deixa voar
sem ter asas…

         Queria que soubesses.

Identidade

Conheço-me
de perto,
tal como sou.

Entrego-me
de coração aberto,
sei o que dou.

Habito
dentro e fora de mim,
traço novos caminhos,
mas sei de onde vim.

Colho na madrugada
essência que se dissolve assim,
entre o silêncio do corpo
e a inocência das palavras,
cúmplices até ao fim.

…Com um sorriso…

Porque sinto a tua falta,
a dor não deixa de doer,
o meu olhar entristece por não te ver
e o coração empobrece por não te ter.

Porque é difícil aceitar a perda
a alma sufoca revoltada,
o corpo entrega-se a uma fraqueza descontrolada,
vive-se em silêncio numa vida pesada.

Habitarás sempre dentro de mim
a tua memória irá permanecer,
o teu sorriso não deixa o meu desaparecer,
hoje e sempre és o irmão que não irei esquecer.

…Com um sorriso…

Passo a Passo

A cada passo,
sinto a liberdade das árvores
invadirem o espaço que é do céu,
o rasgar do vento
que penetra em cada momento
no agitar da folhagem,
que bate forte no silêncio,
levando e trazendo a aragem,
como se fosse roubar o pensamento.

A cada passo,
piso o chão preso pelas raízes
que sustentam a altivez do teu corpo,
e o meu olhar fica a flutuar
entre a quietude do azul do céu
e as folhas verdes que o vão enamorar.
Pela distância tudo parece sereno,
as árvores continuam crescendo
e o caminho vai-se fazendo.

Passo a passo…

Será Verdade?

Será verdade
que temos a memória
talhada de pedaços,
a pele carregada
como uma silhueta de estilhaços?

E o corpo vagueia
num corredor de mentiras,
entre lapsos de tempo,
corrosão de cansaços,
lágrimas escondidas,
palavras perdidas,
horas fugidas
e promessas quebradas.

Será verdade?

Um novo olhar…

De mãos vazias,
mas estendidas ao mundo,
vagueia pelas ruas
um olhar,
um silêncio vagabundo
que se mostra clandestino,
perdido na penumbra,
como se andasse sem destino.

Temido pelo tempo,
entre um passado vivido
e um futuro talvez esquecido,
este olhar,
embora um pouco desajeitado,
não é alheio à miragem
de ver o céu estrelado
e de com ele seguir viagem.

Um olhar
que hoje é meu,
amanhã poderá ser o teu,
de mãos vazias,
mas abertas a cada acordar,
onde nasce sempre um novo olhar…

A ceifa

O dia amadurece
como sendo um fruto,
um rosto que envelhece,
semente deitada à terra,
colheita que a terra nos oferece.

As horas rodeiam a vida
e a natureza não fica esquecida.
Abre mão à ceifa,
que leva consigo o verão
e, num sopro, traz o vento,
debulhando o grão da nova estação.

Entre as folhas caídas
e as árvores que ficarão despidas,
o olhar permanece
atento ao desnudar
que no outono acontece…