No tecido das palavras

Neste tecido onde sempre escrevo
onde há folhas em branco,
outras que rabisco e arranco
porque não fazem sentido,
porque não dizem ao que vivo.

São traços de vozes
sussurradas ao ouvido,
momentos sem tempo,
conversas trazidas pelo vento.

São folhas…
Folhas que se agitam como nas árvores,
folhas onde deixo tombar palavras,
mudas,
talvez para serem lidas,
outras tantas para serem ouvidas.

No tecido onde escrevo,
costuro os verbos entre as minhas mãos
e, em silêncio, vou buscar
os versos que dormem entre as rimas
de um poema,
de um corpo,
onde desperta o toque das palavras,
talvez por serem aveludadas,
talvez por serem acarinhadas.

Quem sabe…
simplesmente amadas!

Tocam os sinos!

Ouves?
São os sinos!
Tocam no coração
chamam o amor,
apelam à união!

A praça está cheia de luzes
mas ainda há rostos apagados,
tristes e desencontrados.
Que a luz seja o caminho
no silêncio que abraça a noite,
haja conforto e carinho
e todos encontrem um lugar
onde se sintam amados.

São os sinos!
Tocam no coração
chamam o amor,
apelam à união!
Ouves?

… Entre nós …

E, depois, veio o vento,
a poeira assentou.
E, depois, vieste tu,
o vento voou.

Ficámos sós!
Olhei-te,
tu vieste ao encontro do meu olhar.
Os corpos tinham pressa,
queriam chegar a algum lugar.

Entre o desejo e o silêncio
estávamos nós…

Arrastávamos a bagagem
à procura do caminho
onde nos pudéssemos arrumar,
onde despíssemos o avesso dos dias,
esses dias difíceis de respirar.

Ficámos sós!
Cobrimos as mãos frias
com as réstias das palavras
que trazíamos na voz
e ficámos sós
entre nós!

Um voo que pousou

Sinto um vazio,
um vazio partido
em silêncio.
Um silêncio que esconde
a luz,
a luz que vive na escuridão
da saudade,
a saudade que cresce com o tempo,
esse tempo que te levou
mas não te afastou de mim.

O meu amor por ti ainda vive
como um voo que pousou,
até o meu voo ter fim…

Para ti,
meu querido irmão.

Silhueta de domingo

Silhueta de domingo
embalada pelo mar,
o meu olhar naufraga
nos teus passos asseados
quando te vejo passar…

Não há sombra no teu caminho,
trazes luz
que se estende ao horizonte
até o sol parece brilhar mais.

Só eu, neste silêncio ondulado
onde permaneço afundado,
querendo um dia ser cais
de todos os teus domingos…

… O caminho do olhar…

A tarde ficou calada,
só a chuva, que vai caindo,
preenche o vazio do silêncio.

E eu, aqui sentada,
sinto que o olhar já continuou caminho,
não se deixa repousar
nem se entrega ao abandono do corpo,
veste bem as horas
não é a chuva que vai caindo
que lhe desbota o brilhar!

Na tua ausência

Pelo tempo que se faz sentir
quero que saibas
que na tua ausência
não há sol,
as manhãs nascem viúvas
enterradas em solidão.

As palavras são escassas,
e as tardes escondem-se nas chuvas
nas horas que trazem a escuridão.

Quero que saibas
que a tua presença
traz aos dias a diferença
do tempo que se faz sentir…