
Desabaram as palavras que habitavam em mim.
Uma a uma foram caindo pelo chão.
O meu coração ficou vazio.
Reinício.
Encontro-me em construção.

Nem sempre me acompanho
por vezes o caminho excede o tamanho,
sinto que o tempo me leva e não me traz,
alimento os sonhos sem saber se sou capaz.
Sentido é o olhar que abre a minha alvorada
silêncio é companheiro na minha jornada,
não temo não ter a certeza de nada,
mas quero ser eu e não viver disfarçada.
E se hoje me sinto desencontrada,
não tarda virá a madrugada.
Amanhã estarei de cara lavada…

Pudesse eu ser asa
para te deixar voar.
Pudesse eu ser casa
para acolher o teu pousar.
Pudesse eu ser uma estrela
para o teu caminho iluminar.
Soubesse eu ser a leveza
para a dureza da vida apagar.
Soubesse eu ser o sol
para fazer o teu dia brilhar.
Pudesse eu ser a pele
para a tua pele agasalhar.
Soubesse eu colher a felicidade
para como presente te dar,
para que saibas
que o meu amor por ti jamais vai acabar.
É semente para uma vida inteira durar.

O dia amanheceu a florir,
abri as cortinas para o sol entrar
o silêncio da noite foi saindo devagar,
senti os poros da minha pele a brotar.
O corpo acorda e reage ao dia
como se fosse uma flor de um jardim,
talvez um malmequer, um lírio ou jasmim,
absorvo o perfume e guardo-o em mim.
Sigo a raiz que faz os dias florescer,
mas nem sempre entendo o seu crescer,
por vezes, o que é certo faz-me perder
e o acaso dá-me tempo para escolher.
A cada passo,
há um dia a florir, o corpo a reagir
e a vida a fluir…

Recolhi os aromas da minha infância,
semeados na cadência do tempo.
Com eles soltaram-se os sonhos,
os segredos soletrados às estrelas,
a inocência da idade
que voava nas asas do vento.
Cada dia tinha um sabor,
um novo alento,
e as horas pousavam devagar,
livres,
dentro do meu olhar.
Guardo esta cumplicidade
com saudade…

Dizem que as palavras não têm tempo,
mas estão em constante movimento,
plenas de intensidade.
Encurtam a distância e medem a verdade,
escutam as conversas,
palavras entre palavras.
Traçam um caminho de cumplicidade,
deixando um rasto na memória,
conjugam-se entre o sonho e a realidade.
Hoje somos palavras,
ditas ou escritas.
Mais adiante somos
palavras recordadas ou apagadas…

O relógio prendeu-me o corpo,
não acordei com a madrugada.
As horas fizeram a sua própria caminhada,
não serei eu a entregar-te a manhã,
a minha rotina tão desejada.
Amanhã deitarei as horas no meu regaço
para não sofrer tal embaraço.
Quero iluminar o teu amanhecer,
afastar a fadiga das horas,
dar tempo ao dia para o teu viver.

Ouvi os queixumes do mar,
entristecido.
Já se tinha lamentado à lua,
desabafava sobre a terra
que por vezes amua,
flutua como as marés,
desorientada,
com o olhar longe.
Desgostoso,
o mar encobre-se no nevoeiro,
saudoso de lhe salgar a pele,
navegar no horizonte do seu corpo,
espalhar na brisa o que guarda no coração.
Sente pela terra um mar de paixão.