Importa viver

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Mais um dia a começar
Atado ao anterior por acabar
Já conheço de cor as horas
Mesmo sem as contar.
O que resta de mim
Nestes dias vulgares
Aos gestos repetidos
Que caem num vazio doentio
Capaz de suspender o tempo
Onde só o silencio desperta
Esta triste realidade
Deixando cair a vontade
De ter algo para oferecer.
Não resta mais que enfeitar a sombra
De um corpo já cansado
Que apesar de não ser velho
Tomba de tão inocente ser
E de tantas vezes provar
O sabor amargo de sofrer.
Visível a fadiga que me lavra o rosto
Nas tatuadas cicatrizes de desgosto
Não aprecio simpatia tecida em hipocrisia
Não sei ser fachada colorida
Na terra que se tornou agreste e esbatida
Onde todos se olham sem se ver
E passam a acreditar no que fingem ser.
Tudo isto habita em mim
Porque, até então, não sabia ser assim
Hoje, vejo apenas o que quero ver
Silencio o que de mais parecer
Importa viver.

Como eu queria…

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Como eu queria
Ter o teu mundo
Perto do meu
Moldar o meu corpo
Para encaixar no teu
Ter um pouco das horas
Que cobrem o teu dia
Ser um pedaço de felicidade
Um doce que alimenta
A nossa cumplicidade
Como eu queria….

Acordar com o teu acordar
Corpos despidos e unidos
Enlear-me no teu coração
Como um ninho de amor
Construído lado a lado
Num bater de asas desenfreado
Ser o teu ponto de luz
No caminho que te conduz
Por aqui ou mais além
Como eu queria
Ir também…

A primavera a chegar

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Suave fragrância
Que emana no ar
O cheiro da terra
As flores a desabrochar
A primavera a chegar!

Vou vestir as palavras
Com pétalas de flores
Aromatizar um poema
Pinta-lo de várias cores
Pedir à brisa que o leve
Faça despertar novos amores.

A primavera está a chegar
A alma despede-se da embriaguez
Da pacatez dos dias de inverno
O sorriso alastra no rosto
O sol acorda bem-disposto
O coração abre-se para amar.

Quero germinar dentro de ti
Flor que cresce e enaltece
Metamorfose de desejos
Entre afagos e beijos
De primavera a mulher
Sou de quem bem me quer.

O tempo

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Percorro com o tempo
Um longo caminho
Convidou-me a seguir com ele
Para não se sentir sozinho.
Mas quando reparei
Já ele estava distante
Tropecei no passado
E enquanto lá fiquei
Ele seguiu em frente
Ausente de mim
Presente no presente.

… O tempo não corre mas não para
Não destrói nem repara
Não mente nem trai
Não vem nem vai
Não apaga memórias
Não constrói histórias…

O tempo é uma sequência
O decorrer de uma viagem
Limitado pela cadência
Pelo peso e pelo valor
Da nossa bagagem.
A leveza da mente
O saco dos sonhos
O poder do amor
A busca da felicidade
O ir em frente
Viver de verdade.

… O tempo não muda
Mudamos com o tempo
Sempre a tempo
De crescer
De voar
De aprender a amar…

Quando anoitece

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Quando anoitece
Mergulho na escuridão
Silhueta a preto e branco
Com a nudez do coração
Quebro as amarras
Que prendem o corpo
O libertam da razão
Para alimentar a paixão.
Procuro a luz da noite
Para soltar os sentidos
Ir ao teu encontro
Pássaros enlouquecidos
Amantes destemidos
Num bater de asas
Alto e profundo
Voamos em sintonia
Até chegar o nascer do dia.

Confusão…

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De repente o olhar fica vazio
Mudo
Tudo é pálido e sem cor
O sorriso fica fechado
Sisudo
Opaco e sem valor
Em redor tudo desaparece
Não há gente
Não há como seguir em frente
Até o tempo parece que parou
Confuso
O que será que mudou?

Há momentos que tudo cansa
Até o próprio descanso
Tantas vezes fujo da agitação
Ansiando o sossego
O repouso da mente
O libertar da razão
Mas tudo muda rapidamente
Volta o desassossego
A azafama da multidão
Não há como seguir em frente
Tanta é a confusão.

Também não sei se quero ir
Nem tão pouco se quero ficar
O corpo está do avesso
Sinto a alma a doer
O coração a esmorecer
Já nem sei se me conheço
Se é na quietude que me aborreço
Ou no receio de a perder.

Memórias…

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Na memória das memórias
Habitam pedaços de histórias
Traços que tracei
Laços que atei
Vitórias que conquistei.

… Fragmentos de momentos
Tristeza pelos dias cinzentos
Alegria pelos talentos
Pelas passadas de sucesso
Entre outras de retrocesso.

Na memória das memórias
Está tatuada a saudade
De conversas inacabadas
Estilhaço de gargalhadas
Lembranças jamais apagadas.

… Alojamento de pensamentos
Alguns pelo tempo presente
Outros de um passado já ausente
Permanecem ou esmorecem
Pelo valor e espaço que merecem.

… A memória
É um encaixe de ideias
Uma esponja de sentimentos
Uma triagem que marca uma viragem
Para seguir em frente na nossa viagem.

A menina dos sonhos

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A pouco e pouco desce a calçada
Aparência simples, mas iluminada
Segue rua abaixo a sua jornada
Feliz com a tarefa que lhe foi confiada.

De olhar brilhante e penetrante
Apenas uma sacola transportava
Oferecendo sorrisos a quem passava
Entre outros com quem conversava.

Da sacola saíam histórias, saíam memórias
O sol, a felicidade e até a amizade
Estendia as mãos perfumadas de flores
Escutava o coração de muitos amores.

Portadora de tempo e de calma
De braços abertos ao mundo
Menina encantada que tanto dava
Acreditava nos sonhos de quem sonhava.

Figura doce, parecia que tinha magia
Tantas noites me fez companhia
Sabia de cor a história que lia
Mas sem ela não adormecia….

… A história da menina dos sonhos

Quem somos?

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Tantas vezes olhamos
Sem ver
Tantas vezes falamos
Sem nada dizer
Tantas vezes tocamos
Sem sentir
Outras vezes escutamos
Sem nada ouvir
Será por conveniência
Ou por falta de essência?

Somos nacos da mesma carne
Seres semelhantes
No nascer e no morrer
Inconstantes
No modo de ser
Viajantes
Com vontade de conhecer
Aprendizes constantes
Da arte de viver.

Somos seres intolerantes
Que nos tornamos distantes
Do valor dos afetos
Somos errantes inquietos
Apenas desejamos ter
Para enaltecer
O que nos falta no ser
Será por conveniência
Ou por falta de essência?

Não somos todos iguais
Somos todos humanos
Uns quantos se tornam banais
Por serem tão artificiais
Vazios e ausentes
Acreditam que são diferentes
Despejam sentimentos
Desperdiçam momentos
Seres meramente superficiais.

Discurso do Sol

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O sol mostrou o seu melhor sorriso
Convidou-me a sair do casulo
A libertar os laços da rotina
Soltar o olhar
Soltar o riso
Deixar para trás a neblina.

Estendeu os seus enormes braços
Levou consigo os lamentos
Arejou os pensamentos
Clareou os meus passos
Seguiu comigo
Como um bom amigo.

O sol não deixa de brilhar
Ainda que não seja constante
Não hesita nem um instante
De me visitar e iluminar
Renovando a energia
Que favorece o meu dia.

O sol com o seu discurso
Molda os sentidos
Que por vezes parecem perdidos
Ensina a saber esperar
Sem nunca perder a vontade de brilhar!