
Desejo a nudez
Dos nossos corpos
Para cobrir
As palavras
Ainda por amadurecer.
Vamos pôr a nu a essência
Da conversa
Despir os segredos
Deixar a pele repousar
E hoje, apenas saciar o anoitecer
Com tanto que temos a dizer…

Desejo a nudez
Dos nossos corpos
Para cobrir
As palavras
Ainda por amadurecer.
Vamos pôr a nu a essência
Da conversa
Despir os segredos
Deixar a pele repousar
E hoje, apenas saciar o anoitecer
Com tanto que temos a dizer…

Estendo-te as minhas mãos
O espelhar do meu olhar
O tato do meu retrato
Onde guardo as palavras
Que não sei pronunciar.
Albergo segredos
Histórias e memórias
Traços de identidade
Mãos que alimentam a paixão
Traduzem os gestos
Vividos pelo coração.
Estendo-te as minhas mãos
Acariciadas pela idade
Vinco de personalidade
Cor da minha pele.
Porto de abrigo
Aconchego e sorriso
Mãos que costuram feridas
Construem laços
Fortificam abraços
Vestem-se de cumplicidade
Partilham felicidade.
Estendo-te as minhas mãos
Que dizem o que sentem
Não mentem,
Mãos que choram a dor
Mãos que vivem de amor.

… Pela vontade de não querer viver pela metade
Encaixo os sonhos na minha realidade
Balanço entre a ilusão e a razão…
Ainda que
Seja apenas um sonho
Agarro a tua presença
Entre suspiros,
Sinto-te dentro de mim
Tomo conta das horas
Para que a noite não tenha fim.
Quando o amanhecer
Me vier acordar
Vou guardar-te no meu coração
Até ao anoitecer
Para quando adormecer
Continuar a sonhar.
Não vou deixar o sono
Roubar-te
Simplesmente assim…

Sou feita de tantas incertezas
Com certeza nem sei quem sou
Guardo pedaços de existência
Para não perder a inocência
Da idade que o corpo
Carrega para onde vou.
Não consigo saciar a vontade
De pousar em todas as palavras
Tudo o que é estranho entranha
Preencho os dias de silêncios
Memorizo todos os olhares
Retrato-me em múltiplos lugares.
Percorro passos certos
Que me levam a destinos incertos
Encontro sentidos há muito perdidos
Remendo partes de mim
Na incerteza que me cobre o ser
Há uma luz que nunca se irá perder.

Rasgo o vento
Com as palavras
Que levo no pensamento
Com o silêncio
Que trago na voz
Vou tecendo a vontade
De ajustar o ser ao crer
Dando tempo ao tempo
Abrindo a cortina
E no aconchego do corpo
Entrego a alma
À poesia.

Diz-se…
Que é a quietude da alma
Que cai sob a essência das folhas
E num feitiço de cores
Pintam a natureza
De tons quentes
Que aquecem o olhar
No estalar do frio
Que nos vem visitar.
Diz-se …
Que é o adormecer dos dias
Entre o céu acinzentado
E o sol amedrontado
Com o soprar do vento
E o cair da chuva
Que lhe roubam o raiar
Esconde-se deprimido
E só às vezes vem espreitar.
Diz-se …
Que é o colher de sensações
Um curar de feridas e cicatrizes
Um remexer de emoções
Entre o refúgio das lembranças
E a audácia das mudanças
Num bater de asas
Rumo a novas fragrâncias
Abrigo de todas as estações.
Dizem…
Que é o outono.

Da terra guardo os segredos
Promessas de um campo aberto
Sémen de trigo que germina
Entre o ventre das colinas
E a suave brisa do silêncio.
O olhar pousa e repousa
O corpo fatigado pela safra
Do amadurecer dos sonhos
E da colheita dos desejos
Semeados no regaço do coração
Tecidos no abrigo da imaginação.
Por entre os traços verdes do arvoredo
Cresce a raiz que me prende à vida.
… Sente as palavras como pétalas aveludadas
Embebe-as em ousadia,
Entrega-se à arte
De as acomodar em poesia.
É quando fecho os olhos
Que sinto as palavras
Escritas no teu olhar.
Poeta,
Que despertas o meu silêncio
Derramas em mim
A fragrância da tua rima
E ao meu corpo vens buscar
A substância da tua poesia.
Encanta-me
Esse teu encantado mundo
Que por vezes desconheço
Mas é tão doce
Tão vivo,
Apenas o quero habitar.

Sentado no banco de jardim
De olhar triste e sombrio
Semblante magoado
Em quietude ignorado
Pela vastidão dos rostos
Que seguem na multidão.
Embebido em silêncio
Por um corpo repousado
Cansado do cansaço
Entre o vazio acumulado
De andar de banco em banco
Sozinho e arrastado.
Aprendeu a moldar os gestos
Para não ferir quem o possa ver
Gasta as horas que cobrem os dias
No aconchego da memória
Refúgio onde correm as lágrimas
E o levam à nascente da sua história.
Prende-se à corrente dos outros
Acrescenta-se com tudo o que vê
Alimenta-se com o viver da gente
Dá um jeito às dores que sente
Deixa-se ir com o pensamento
Até chegar o seu momento.

Não finto o olhar
Vou para onde ele me levar
Tamanho é o horizonte
Que já não me cabe no peito
Transbordam os sonhos
É nas nuvens que me deleito.
A vida move-se
Entre o escorrer do tempo
Dos dias a amadurecer
E das noites acordadas
Acorrentadas à insónia
Ao desejo de serem amadas.
Tomara eu ter asas
Para alimentar as madrugadas
Cobrir de beijos as orvalhadas
Travar a distância dos corpos
Ser sol e por vezes lua
Num sopro de vento ser tua.